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Neste
último dia dos pais, vi uma cena que me deixou chocada e
revoltada. Em plena tarde de sol de domingo, vi dois vagabundos
arrombarem um carro ali na Osvaldo Aranha. A cena me deixou, acima
de tudo, revoltada com minha incapacidade de ação
diante do que meus olhos viam.
Lá pelas quatro horas da tarde, estacionei o carro um pouco
antes da esquina da Osvaldo Aranha com a Barros Cassal para buscar
uma pessoa que mora nas imediações. Parei o carro,
desci e fechei para não ficar esperando parada dentro do
carro. Nisto, vejo uns dois caras olhando os carros estacionados.
A rua estava cheia, várias pessoas na parada de ônibus
ali em frente, muitas outras andando pelas calçadas com suas
térmicas e cuias de chimarrão, indo ou voltando da
Redenção. De repente, um dos caras mete o pé
no meio da porta de um carro, segura a porta acima do vidro com
as duas mãos e entorta a porta. O alarme dispara, o outro
cara abre a porta, entra, senta, pega alguma coisa dentro do carro,
sai do carro, fecha a porta e sai caminhando com três casacos
na mão. Os dois passam pela minha frente e seguem andando
rumo ao Instituto de Educação.
Fiquei
perplexa. Primeiro, não consegui perceber o que estava acontecendo.
Meu cérebro demorou vários segundos para processar
a informação de que eu estava vendo dois marginais
arrombarem um carro estacionado a alguns metros do meu. Depois que
"a ficha caiu", fiquei revoltada pois ninguém agiu,
ninguém fez nada. Várias pessoas viram, eu vi, e não
fizemos nada. Aí, fiquei pensando: fazer o quê? Se
eu chamar a polícia eles vão demorar horas para chegar
aqui e "os caras" já vão estar lá
do outro lado da cidade até lá. Vou xingar os caras,
ir para cima deles? Não posso. No mínimo, eles vão
bater em mim, afinal de contas, ninguém vai me ajudar neste
momento. Além disto, eles podiam muito bem estar armados,
me assaltarem, levarem meu carro. A chave estava na minha mão...
Não pude fazer nada. Fiquei de "mãos atadas"
vendo aquilo. Fiquei revoltada por morar num país em que
estamos impossibilitados de reagir diante de uma situação
como esta.
Eu só conseguia pensar que não podia fazer isto, não
podia fazer aquilo. Todas as minhas opções de ação
estavam limitadas ou impossibilitadas. Se ao menos eu pudesse contar
com outras pessoas, mas elas deviam estar tão perplexas e
tão indecisas como eu. Como é que poderíamos
agir diante daquilo? Sair correndo atrás "dos caras"
e "encher eles de porrada" (que é o que eles mereciam)?
Como? Será que eu posso sair correndo e chamando as outras
pessoas para me ajudar? Será que os outros virão?
Eu não sei. Tenho todas as dúvidas a respeito disto.
Acho que as pessoas preferem fazer de conta que não viram
nada e atravessar a rua. Não existe um sentimento de coletividade.
Somos individualistas demais para agirmos em grupo numa situção
como esta. De toda forma, a população não deveria
precisar agir assim. Para este tipo de ocorrência, existe
a polícia.
A Polícia existe mas acho que está tão sem
ação como o resto da população. Viaturas
sucateadas, baixa remuneração, leis brandas, justiça
lenta, policiais mal treinados, delegacias "caindo aos pedaços",
armamentos ultrapassados... Não é triste constatar
que nosso país não investe o que deveria em segurança
pública? Eu acho isto extremamente revoltante. Com a quantidade
de impostos e taxas que pagamos diariamente quando compramos qualquer
coisa no supermercado, na fármacia, no barzinho da esquina
e etc, deveríamos ter uma polícia bem equipada, uma
saúde pública eficiente e escolas dignas das nossas
crianças.
A
cena de domingo me fez constatar que ainda não temos a classe
política que precisamos para fazer este país funcionar
como deveria. Ainda bem que é ano de eleições.
Num país de tantos deveres e impossibilidades, temos que
exercer uns dos poucos direitos que temos com responsabilidade e
escolher melhor aqueles que vão nos representar nos cargos
públicos.
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