Domingo de Sol

 
 

Graziela Silveira

Neste último dia dos pais, vi uma cena que me deixou chocada e revoltada. Em plena tarde de sol de domingo, vi dois vagabundos arrombarem um carro ali na Osvaldo Aranha. A cena me deixou, acima de tudo, revoltada com minha incapacidade de ação diante do que meus olhos viam.

Lá pelas quatro horas da tarde, estacionei o carro um pouco antes da esquina da Osvaldo Aranha com a Barros Cassal para buscar uma pessoa que mora nas imediações. Parei o carro, desci e fechei para não ficar esperando parada dentro do carro. Nisto, vejo uns dois caras olhando os carros estacionados. A rua estava cheia, várias pessoas na parada de ônibus ali em frente, muitas outras andando pelas calçadas com suas térmicas e cuias de chimarrão, indo ou voltando da Redenção. De repente, um dos caras mete o pé no meio da porta de um carro, segura a porta acima do vidro com as duas mãos e entorta a porta. O alarme dispara, o outro cara abre a porta, entra, senta, pega alguma coisa dentro do carro, sai do carro, fecha a porta e sai caminhando com três casacos na mão. Os dois passam pela minha frente e seguem andando rumo ao Instituto de Educação.

Fiquei perplexa. Primeiro, não consegui perceber o que estava acontecendo. Meu cérebro demorou vários segundos para processar a informação de que eu estava vendo dois marginais arrombarem um carro estacionado a alguns metros do meu. Depois que "a ficha caiu", fiquei revoltada pois ninguém agiu, ninguém fez nada. Várias pessoas viram, eu vi, e não fizemos nada. Aí, fiquei pensando: fazer o quê? Se eu chamar a polícia eles vão demorar horas para chegar aqui e "os caras" já vão estar lá do outro lado da cidade até lá. Vou xingar os caras, ir para cima deles? Não posso. No mínimo, eles vão bater em mim, afinal de contas, ninguém vai me ajudar neste momento. Além disto, eles podiam muito bem estar armados, me assaltarem, levarem meu carro. A chave estava na minha mão... Não pude fazer nada. Fiquei de "mãos atadas" vendo aquilo. Fiquei revoltada por morar num país em que estamos impossibilitados de reagir diante de uma situação como esta.

Eu só conseguia pensar que não podia fazer isto, não podia fazer aquilo. Todas as minhas opções de ação estavam limitadas ou impossibilitadas. Se ao menos eu pudesse contar com outras pessoas, mas elas deviam estar tão perplexas e tão indecisas como eu. Como é que poderíamos agir diante daquilo? Sair correndo atrás "dos caras" e "encher eles de porrada" (que é o que eles mereciam)? Como? Será que eu posso sair correndo e chamando as outras pessoas para me ajudar? Será que os outros virão? Eu não sei. Tenho todas as dúvidas a respeito disto. Acho que as pessoas preferem fazer de conta que não viram nada e atravessar a rua. Não existe um sentimento de coletividade. Somos individualistas demais para agirmos em grupo numa situção como esta. De toda forma, a população não deveria precisar agir assim. Para este tipo de ocorrência, existe a polícia.

A Polícia existe mas acho que está tão sem ação como o resto da população. Viaturas sucateadas, baixa remuneração, leis brandas, justiça lenta, policiais mal treinados, delegacias "caindo aos pedaços", armamentos ultrapassados... Não é triste constatar que nosso país não investe o que deveria em segurança pública? Eu acho isto extremamente revoltante. Com a quantidade de impostos e taxas que pagamos diariamente quando compramos qualquer coisa no supermercado, na fármacia, no barzinho da esquina e etc, deveríamos ter uma polícia bem equipada, uma saúde pública eficiente e escolas dignas das nossas crianças.

A cena de domingo me fez constatar que ainda não temos a classe política que precisamos para fazer este país funcionar como deveria. Ainda bem que é ano de eleições. Num país de tantos deveres e impossibilidades, temos que exercer uns dos poucos direitos que temos com responsabilidade e escolher melhor aqueles que vão nos representar nos cargos públicos.