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Uma
visita inesperada num domingo de manhã roubou a paz de todos
que moram aqui em casa. É incrível como um furto sem
violência física pode gerar tanta violência psicológica
depois de executado.
Deixa eu explicar a situação. Num domingo destes,
às oito e meia da manhã, um homem entrou tranquilamente
na casa onde moro com meus pais e furtou alguns reais que eu tinha
na carteira. Eu estava em casa, mas não vi nada, pois estava
no banho. Meus pais haviam saído há cinco minutos.
Como a vizinha viu o homem, ele foi embora logo em seguida sem levar
mais nada. Simplesmente saiu caminhando calmamente pelo pátio
da mesma forma que entrou. Ele não levou muita coisa. Eu
não tinha muito dinheiro na carteira para variar, mas esta
visita inesperada roubou a paz da minha família, restringiu
nosso direito de ir e vir e ainda causou danos financeiros, já
que tivemos que trocar todas as chaves da casa, pois, como não
houve arrombamento, só podemos crer que este homem, de alguma
forma, conseguiu as chaves da nossa casa.
Nossa vida mudou depois deste fatídico domingo. Este visitante
violentou minha
família de uma forma diferente. Ele restringiu nosso direito
de ir e vir. Agora, ao
invés de ficar cinco horas fora de casa, ficamos duas. Ao
invés de viajar por dois
dias, não dormimos fora de casa. Quando saímos de
casa, ficamos ansiosos para
voltar, pois não sabemos o que estará acontecendo
no nosso lar. Estamos reféns da situação. Meu
pais me telefonam várias vezes ao dia para saber onde ando,
que horas chego em casa, o que estou fazendo. Qualquer atraso já
vira um drama familiar, uma angústia que só passa
quando a pessoa aparece em casa. Uma casa, aliás, que mais
parece um presídio, pois tem reforço no portão
eletrônico, grades altas, cerca elétrica, sistema de
alarme, chaves tetra em várias portas, grades nas janelas
e portas e por aí vai.
O nosso visitante deixou uma herança de medo, insegurança.
Agora, antes de sair de casa, chaveamos armários, portas,
gavetas e escondemos as chaves. Sair de casa é quase uma
operação de guerra. O difícil é esquecer
o óculos no quarto e só lembrar depois da casa toda
fechada. Haja paciência para pegar as milhares de chaves,
abrir todas as portas até chegar no quarto, pegar o óculos
e depois chavear todas as portas novamente sempre conferindo se
elas realmente estão chaveadas. É toda uma nova rotina
que beira a neurose e irrita profundamente àqueles que precisam
se submeter às novas regras para ter um pouco mais de sossego
ao sair de casa. Acima de tudo, o ladrão do domingo de manhã
roubou a paz que a minha família tinha.
Como já disse, a nossa rotina mudou. As preocupações
dobraram, as angústias também. Estamos recheados de
dúvidas, de temores. Perguntas como: Como será que
ele conseguiu a chave de casa? Foi a faxineira? Os pedreiros que
trabalharam por aqui no fim do ano? Os pintores? Em quem não
podemos confiar? Será que alguém controla a rotina
da nossa casa? Temos alguém cuidando entradas e saídas
de todos? Quando ficaremos seguros? Será que sentiremos tranquilidade
e segurança novamente? O que mais podemos fazer para reforçar
a segurança da casa? Como reforçar a segurança
de quem mora nela?
Um
furto que não teve maiores danos financeiros ou físicos
para ninguém aqui em casa causou um dano irreparável
na rotina da minha família. E isto acontece todos os dias
com milhares de brasileiros. Estamos vivendo com medo, atemorizados.
Não temos segurança em lugar algum, nem nos ricos
condomínios de luxo, nem na rua, nem em casa, nem no trabalho,
nem nas escolas. Estamos à mercê de uma sociedade cheia
de pessoas violentas e egoístas capazes de tudo para conseguirem
o que querem. É preciso fazer algo para mudar esta situação,
mas o quê? Alguém por aí tem alguma dica?
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