Paz Roubada

 
 

Graziela Silveira

Uma visita inesperada num domingo de manhã roubou a paz de todos que moram aqui em casa. É incrível como um furto sem violência física pode gerar tanta violência psicológica depois de executado.

Deixa eu explicar a situação. Num domingo destes, às oito e meia da manhã, um homem entrou tranquilamente na casa onde moro com meus pais e furtou alguns reais que eu tinha na carteira. Eu estava em casa, mas não vi nada, pois estava no banho. Meus pais haviam saído há cinco minutos. Como a vizinha viu o homem, ele foi embora logo em seguida sem levar mais nada. Simplesmente saiu caminhando calmamente pelo pátio da mesma forma que entrou. Ele não levou muita coisa. Eu não tinha muito dinheiro na carteira para variar, mas esta visita inesperada roubou a paz da minha família, restringiu nosso direito de ir e vir e ainda causou danos financeiros, já que tivemos que trocar todas as chaves da casa, pois, como não houve arrombamento, só podemos crer que este homem, de alguma forma, conseguiu as chaves da nossa casa.

Nossa vida mudou depois deste fatídico domingo. Este visitante violentou minha
família de uma forma diferente. Ele restringiu nosso direito de ir e vir. Agora, ao
invés de ficar cinco horas fora de casa, ficamos duas. Ao invés de viajar por dois
dias, não dormimos fora de casa. Quando saímos de casa, ficamos ansiosos para
voltar, pois não sabemos o que estará acontecendo no nosso lar. Estamos reféns da situação. Meu pais me telefonam várias vezes ao dia para saber onde ando, que horas chego em casa, o que estou fazendo. Qualquer atraso já vira um drama familiar, uma angústia que só passa quando a pessoa aparece em casa. Uma casa, aliás, que mais parece um presídio, pois tem reforço no portão eletrônico, grades altas, cerca elétrica, sistema de alarme, chaves tetra em várias portas, grades nas janelas e portas e por aí vai.

O nosso visitante deixou uma herança de medo, insegurança. Agora, antes de sair de casa, chaveamos armários, portas, gavetas e escondemos as chaves. Sair de casa é quase uma operação de guerra. O difícil é esquecer o óculos no quarto e só lembrar depois da casa toda fechada. Haja paciência para pegar as milhares de chaves, abrir todas as portas até chegar no quarto, pegar o óculos e depois chavear todas as portas novamente sempre conferindo se elas realmente estão chaveadas. É toda uma nova rotina que beira a neurose e irrita profundamente àqueles que precisam se submeter às novas regras para ter um pouco mais de sossego ao sair de casa. Acima de tudo, o ladrão do domingo de manhã roubou a paz que a minha família tinha.

Como já disse, a nossa rotina mudou. As preocupações dobraram, as angústias também. Estamos recheados de dúvidas, de temores. Perguntas como: Como será que ele conseguiu a chave de casa? Foi a faxineira? Os pedreiros que trabalharam por aqui no fim do ano? Os pintores? Em quem não podemos confiar? Será que alguém controla a rotina da nossa casa? Temos alguém cuidando entradas e saídas de todos? Quando ficaremos seguros? Será que sentiremos tranquilidade e segurança novamente? O que mais podemos fazer para reforçar a segurança da casa? Como reforçar a segurança de quem mora nela?

Um furto que não teve maiores danos financeiros ou físicos para ninguém aqui em casa causou um dano irreparável na rotina da minha família. E isto acontece todos os dias com milhares de brasileiros. Estamos vivendo com medo, atemorizados. Não temos segurança em lugar algum, nem nos ricos condomínios de luxo, nem na rua, nem em casa, nem no trabalho, nem nas escolas. Estamos à mercê de uma sociedade cheia de pessoas violentas e egoístas capazes de tudo para conseguirem o que querem. É preciso fazer algo para mudar esta situação, mas o quê? Alguém por aí tem alguma dica?