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| SUDÃO: 5 DÉCADAS DE CONFLITOS ARMADOS E DISPUTAS ÉTNICAS
por Marco Poli* Em pleno agosto de 2008 o mundo ficou perplexo com uma atitude tão anacrônica quanto desorganizada. Rebeldes africanos do Sudão seqüestraram um avião de passageiros, tentaram desviar o vôo para o Egito, onde não tiveram pouso e refugiaram-se na Líbia.
Depois de liberarem os passageiros, mantiveram a tripulação como refém e se proclamaram membros do Movimento de Libertação do Sudão. O líder do MLS, Abdul Wahid Mohammed Nur, negou peremptoriamente qualquer relação com o ataque terrorista e com os seqüestradores. Mesmo assim, a atitude de seqüestrar uma aeronave civil, repleta de reféns, já não era vista há tanto tempo que chamou atenção, por seu anacronismo e pela absoluta falta de critérios na busca por uma solução pacífica para os conflitos em que os sudaneses se envolvem em seqüência há mais de 50 anos. Grande, rico, perdulário e faminto Sudão
O Sudão ocupa grande parte da bacia do alto Nilo, desde os contrafortes das Terras Altas da África Oriental até o Sahara. Seu território divide-se em duas regiões bem distintas: uma área desértica ao norte e uma área de savanas e florestas tropicais ao sul. Décimo maior país do planeta, que manifesta influências étnicas e culturais dos países vizinhos. Ao Norte, as populações são árabes e muçulmanas. No Sul, predominam africanos negros, alguns cristãos mas, na sua maioria, pagãos que conservam os dialetos tribais. O Sudão é hoje o maior país da África, e está em guerra civil há 5 décadas. Praticamente todos os grupos étnicos e religiosos com algum poder participaram e contribuíram com esta guerra que dura toda sua história pós-colonial, começando em 1956.
A política continua sendo dominada por desconfiança, interferência externa e animosidades inflamáveis. Há dúzias de grupos armados por todo o país, cada um com sua própria agenda política. O conflito entre o governo muçulmano e guerrilheiros não-muçulmanos, baseados no sul do território, revela as realidades culturais opostas da Nação. Estamos falando de uma república autoritária onde todo o poder está nas mãos do presidente Omar Hasan Ahmad al-Bashir; ele e o seu partido estão no poder desde o golpe militar de 30 de Junho de 1989. Nos últimos tempos, um inimigo político atrás do outro vem fechando o cerco em volta dele. O resultado foi uma reordenação rápida e radical da nervosa política do Sudão, dirigida em parte pelo orgulho nacionalista, mas também por medos profundamente arraigados de que a nação venha a cair num caos no estilo Somália, se al-Bashir for retirado do comando.
O presidente do Sudão, foi acusado de genocídio pelo promotor do Tribunal Penal Internacional e difamado em todo o mundo como um incorrigível assassino em massa decidido a massacrar seu próprio povo em Darfur. Mas, dentro do Sudão, seu poder parece, por ora, mais óbvio do que nunca. Não se entendem nem entre eles Além do MLS de Mohammed Nur, dois grupos rebeldes que se opõem ao governo se uniram, na
tentativa de agregar simpatia internacional através da Frente de Redenção Nacional, liderado pelo ex-governador de Darfur, Ahmed Diraige, mesmo havendo diferenças étnicas e políticas entre eles. Tentativas da União Africana – um bloco de países africanos – para encerrar o conflito resultaram em um tratado de paz, assinado em 2006. O governo do Sudão patrocinou o tratado, mas apenas uma facção– a do rebelde Minni Minawi – assinou o acordo. Desde 2003 que a região de Darfur assiste ao extermínio da população negra, por parte da árabe, depois que um grupo rebelde começou a atacar alvos do governo, alegando que a região estava sendo negligenciada pelas autoridades sudanesas em Cartum. A guerra e prolongados períodos de seca já deixaram mais de 2 milhões de mortos. No esforço para "limpar" o oeste do país de "zurgas" - termo que pode ser traduzido como "crioulos"- o governo da Frente Islâmica Nacional já exterminou mais de 400 mil deles e expulsou 2 milhões de "prostitutas" -pelo código muçulmano mulheres que têm relações sexuais fora do matrimônio, mesmo que estupradas, são assim qüalificadas. As milícias racistas simpatizantes do governo de Cartum, conhecidas como Tarzan, adorariam continuar a matar e devastar, no entanto, os povoados negros já foram todos queimados, e todas as mulheres negras já foram estupradas.
Capacidade de renda tão alta quanto desigualdade social No índice de desenvolvimento humano -IDH, instituído pela ONU para medir desigualdades, o Sudão ocupa 147º lugar no mundo.
Apesar dos 40 milhões de habitantes(que podem ser 60, por falta de estatísticas confiáveis) a densidade demográfica ainda está longe da saturação, com média de 14 hab/km². As taxas de natalidade e de mortalidade são, respectivamente, de 34,53% e 8,97%. A esperança média de vida é de 59 anos. A economia sudanesa baseia-se na agricultura, sobretudo na exploração de "cash crops" como algodão e óleo de gergelim, em conjunto responsáveis por 40% das receitas de exportação do país. A região sul do país assenta-se sobre considerável bacia de petróleo, com reservas estimadas de 250 milhões de barris e potencial de capacidade de produção diária de 150 mil barris. Desde 1999; a produção crescente de petróleo deu uma nova vida à indústria Sudanesa, fazendo com que o PIB subisse 6,1% em 2003. O Sudão tem um solo ainda rico em gás natural, ouro, prata, cromo, amianto, manganês, gipsita, mica, zinco, ferro, chumbo, urânio, cobre, cobalto, granito, níquel e alumínio. Embora seja o maior país do continente africano, sua produção agrícola representa apenas 29% do PIB. Os principais produtos de exportação são algodão, combustíveis, óleos e ceras minerais; sementes e grãos; sucos vegetais; peles e a goma arábica. Relações com o Brasil
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