Entrevistas - Sérgio Reis

ENTREVISTA COM SÉRGIO REIS

Desde seu envolvimento com a comunicação popular há mais de 60 anos, ainda como rádio-ator, passando pela TV Tupi, dirigindo a primeira transmissão televisiva à cores do país, chegando aos dias atuais, Sérgio Reis passou por todas as tranformações que levaram a televisão a ser o que é hoje, " o maior veiculo comunicador da grande massa", segundo ele mesmo define. Ao relembrar o passado, fica longe do saudosismo, relembrando alguns momentos e personagens que fizeram parte da sua trajetória, mas colocando seu foco sempre no presente, estando sempre, assim como sua concepção sobre a TV, em constante adaptação e longe do declínio.

Capital Gaúcha -
O sr. acompanhou toda a evolução da televisão no Rio Grande do Sul, tendo participado inclusive, como diretor, da primeira transmissão a cores da televisão brasileira. Para quem ainda não conhece esse histórico profissional, que tal traçar um perfil para que nossos leitores conheçam melhor essa linha do tempo.

Sérgio Reis - Comecei na Rádio farroupilha em 1947, com nove anos de idade como radio-ator. Virei locutor e redator de notícias. Em 1959, com mais 17 colegas, fui para o Rio de Janeiro para o curso de televisão criado pela TV Tupi para formar o núcleo base de profissionais que iriam operar a TV Piratini, inaugurada em 20 de dezembro de 1959! Fiquei lá como Diretor de TV (Suíte), Diretor de Programas e apresentador de programas até 1963 quando, a convite, fui para a TV Gaúcha (hoje RBS TV) como Chefe de Programação. Em 1970 fui para a TV Difusora (hoje Band TV) com a mesma função. Em 1971 criamos o Telecentro Difusora de Produções Comerciais (inédito na América do Sul), uma produtora de comerciais em video tape. Ainda em 71 morei um ano nos EUA, por conta da Difusora para estudar e conhecer a redes de TV americanas. Em 72 fui para o Rio de Janeiro dirigir a TV Rio (do grupo da TV Difusora) e aplicar os conhecimentos auferidos nos EUA. Neste ano dirigi a transmissão que implantou a TV em cores no Brasil: Festa da Uva de Caxias para todo o país. Em 1976 voltei para Porto Alegre e dirigi o Departamento de Produções da RBS TV e a produtora de comerciais em VT. Em 1979 fui para TV Guaíba criar uma produtora de comerciais em VT. Em 81 assumi a Direção de Programação da TV Guaíba. De 1983 até 93: iniciativa privada: dono de uma rádio no interior de São Paulo. Voltei para Porto Alegre onde permaneço. Atualmente dirijo especiais (nacionais) para a Rede Vida de Televisão, ancoro um programa semanal (Tribuna Independente), dou aulas de radialismo na Fundação Educacional Padre Landell de Moura e faço palestras em Universidades nos estados do sul do Brasil.

Capital Gaúcha - Disso tudo, qual a época que deixou mais saudades, que deu mais prazer de trabalhar e por quê?

Sérgio Reis - Olha, saudades, saudades não tenho de época nenhuma. Sou o que sou agora. Penso que na vida mais vale um sou do que dois fui! Lembro com prazer de algumas passagens de minha vida e com desprazer de outras. Com prazer: inaugurar a TV Piratini; lançar programas inéditos; ser suíte da série Grandes Reportagens Banmércio, produzida pelo Faveco (Flávio Antonio Oscar Arthur Alcides Correa) e dirigida pelo Lauro Schirmer; ser suíte do Jornal de Vanguarda – Um Show de Notícias na TV Gaúcha; criar, lançar e dirigir a programação da TV Guaíba; dirigir a implantação da TV a cores no Brasil; o programa que faço hoje... como diria Roberto Carlos naquela canção chatinha: São tantas as emoções...mas as que me deram desprazer tenho-as mais como lições para não repeti-las.

Capital Gaúcha - Quais são aqueles casos que sempre voltam à memória e que merecem sempre ser recontados às novas gerações?

Sérgio Reis - Tenho um livro publicado pela Artes e Ofícios Editora (3311 0832) chamado Making Off. Ali conto muitas histórias, que parecem engraçadas mas, na realidade, mostram os imprevistos do tempo “Quem sabe faz ao vivo”.

Capital Gaúcha - Se fosse convidado a opinar, que alterações que o senhor sugeriria na programação da TV aberta atual?

Sérgio Reis - Nenhuma. Cada TV ocupa um espaço no espectro. As TVs estão a exemplo do rádio, se segmentando, buscando seus públicos próprios. A Globo continua no seu modelo antigo, com um foco amplo, o SBT procura agradar classes menos favorecidas, a Record está mais preocupada em combater a Globo do que criar seu espaço, a Band insiste em exportar São Paulo para o Brasil.

Não sou dos que dizem que tal ou qual programa é ruim. Ruim para quem? Para mim, talvez. Mas o que isso significa? Apenas que eu não gosto e que, certamente, muitas outras pessoas gostam. Se todos gostassem do verde, o que seria do amarelo? Profissionais não podem analisar programações de veículos a partir de seus gostos pessoais. Trabalhamos para o público. Quem não entende isso é incompetente. Faz-se televisão para agradar à determinado segmento, isso é o que importa, pois a televisão continua sendo a o maior veiculo comunicador da grande massa.

Capital Gaúcha - É possível que o RS, que já foi um celeiro formador de grandes talentos televisivos volte a ser um fornecedor de qualidade para a área? O que está faltando nas escolas, ou nos canais que aí estão para voltar a formar profissionais de ponta?

Sérgio Reis - Que se desative a globalização. O RS é estado-ponta. Não somos centro do país, não temos anunciantes suficientes fortes para bancar os custos de tal trabalho. Redes de televisão só acontecem em grandes centros: Rio e São Paulo. O resto: esquece. Estão condenados a fazer programações locais. Com capricho, criatividade, esforço, etc. Mas sempre serão periféricos. Tua afirmativa “o RS, que já foi um celeiro formador de grandes talentos televisivos” carece de realidade. Ao longo dos últimos 50 anos “exportamos” uns 15 atores de ponta e algumas apresentadoras e repórteres de telejornais. É pouquíssimo. Esta afirmativa é uma visão alucinatória, como diz Edgar Morin.

Capital Gaúcha - Para finalizar, quem da época de ouro da TV continua atuando e fazendo sucesso hoje? Ainda mantém contato regular com algum deles? Quem não está, mas ainda poderia contribuir?

Sérgio Reis - O que chamas de “época de ouro”? Penso que estamos influenciados por uma linha de profissionais saudosistas, que dizem estar a televisão em declínio. Afirmo que este é um grave erro. A TV está (como sempre esteve) em processo de transição, adaptando-se aos novos “modismos”. Declínio, nunca. Ela é e será sempre ponta de informação; se mais lenta que a internet, não importa. É o caso do “furo“. Explico: furo não existe, a informação só é um furo para quem a escuta ou vê pela primeira vez.

Voltando aos “anos de ouro”: eles foram ante-ontem, ontem, hoje e serão amanhã. Quanto aos profissionais: muitos se afastaram ou foram afastados pelos veículos, outros continuam (não cito nomes, poderia ofender alguns por esquecimento). São muitos os que poderiam ainda contribuir, mas, neste nosso país, quem tem mais de 50 anos é velho. Mesmo com talento são substituídos por jovens sem a mesma experiência e, conseqüente, competência. Perdem os veículos e perde o público.



RETORNAR