Entrevista - Flávio Roberto Sabbadini - Fecomércio/RS
"É hora do lojista pensar um pouco também como banqueiro". A afirmação é do presidente do Sistema Fecomércio do RS, Flávio Roberto Sabbadini. Na entrevista, o dirigente da federação do comércio aponta as mais indicadas alternativas para passar por esse momento de incertezas sem ter que fechar as portas; para oportunidades de crescimento mesmo na crise, perspectivas para este e o próximo ano, importância da qualificação profissional e muito mais. Confira na íntegra.

Capital Gaúcha - Com muitas empresas demitindo e até mesmo fechando as portas, como o senhor analisa os reflexos da crise aqui no Rio Grande do Sul? Quais as alternativas para se passar por uma crise desse porte?

Sabbadini - A crise chegou ao Brasil e ao RS pelo setor industrial. Os efeitos no setor terciário são até agora de segunda ordem, isso é, menos intensos que na indústria. Na medida em que o emprego industrial se reduz, o volume de vendas no comércio diminui. Os dados do cadastro geral de empregados e desempregados (CAGED) mostram que o setor terciário está mantendo constante o seu volume de empregos. A deterioração do mercado de trabalho está sendo causada pela desaceleração da produção da indústria.

As iniciativas importantes a serem tomadas pelos empresários para sobreviver a crise são: 1º) gerenciar melhor os estoques; 2º) priorizar a venda à vista ou em poucas parcelas, de modo a manter recursos livres em caixa; 3º) cortar custos; 4º) reprogramar os investimentos planejados e 5º) estar atento a possíveis mudanças no cenário econômico, pois há possibilidade de auferir ganhos no momento da reversão do cenário econômico.

Capital Gaúcha - Uma crise como esta gera efeitos como o aumento da inadimplência empresarial, que, segundo levantamento do Serasa, chegou a 24% em março, em relação a fevereiro e que se comparado a março do ano passado, a taxa atinge 50,7%. Como diminuir este problema?

Sabbadini - Como mencionado anteriormente, na crise é preferível manter recursos em caixa, ou seja, mesmo que dando algum desconto, a venda à vista, ou em poucas parcelas, deverá, sempre, ser privilegiada. Além disso, temos que melhorar, também, nossos procedimentos de análise de crédito. É hora de o lojista pensar um pouco também como banqueiro. Vale dizer, não adianta realizar a venda e depois não receber as parcelas.

Capital Gaúcha - Num mercado cada vez mais competitivo, onde as empresas buscam profissionais multifuncionais e que sejam indispensáveis dentro do contexto da mesma, como a qualificação e especialização profissional podem contribuir para buscar não só um melhor emprego, mas até mesmo uma estabilidade diante de um momento de incertezas no país e no mundo?

Sabbadini - Qualificação profissional é um requisito fundamental no século do conhecimento. As organizações e empresas de sucesso no século XXI serão aquelas com corpo de colaboradores capacitados, pro-ativos e flexíveis. Pensando em colaborar com o desenvolvimento empresarial do país, o Sistema Fecomércio-RS, através do SENAC, vem se adaptando aos novos tempos e oferecendo cursos compatíveis com essas necessidades. Nos últimos dois anos, por exemplo, o SENAC já formou, por meio de seus cursos, cerca de 41,6 mil pessoas na área de informática, e teve mais de 12 mil matriculadas em cursos de línguas. Como o mercado é cada vez mais globalizado e informatizado, esse tipo de habilidade e conhecimento são fundamentais para o profissional de sucesso.

Capital Gaúcha - Quais são as iniciativas que a entidade vem adotando e apoiando visando a discussão e a orientação de empresas e seus integrantes para passar por este momento econômico?

Sabbadini - A Fecomércio-RS dispõe de uma rede de mais de 8 mil líderes regionais (diretores delegados) espalhados por todo o RS. Esses líderes disseminam as informações e análises econômicas produzidas pelos Sistema Fecomércio-RS com o objetivo de posicionar o empresário gaúcho diante de um cenário econômico nacional e mundial cada vez mais complexo e incerto. É preciso lembrar que o mercado relevante para a empresa gaúcha não é apenas o RS. O empresário gaúcho é, por natureza, um empreendedor com olhos voltados para o mundo.

Capital Gaúcha - Quais as suas perspectivas para o ano de 2009 e o próximo? É possível enxergar uma melhora no quadro atual ainda para este ano?

Sabbadini - Segundo estimativas do Fundo Monetário Internacional, o ano de 2009 será caracterizado por uma profunda recessão. Estima-se que o PIB mundial cairá 1,3% neste ano. Contudo, a crise não gera só problemas, ela também apresenta um conjunto de oportunidades. O empreendedor, por definição, se concentra, basicamente, nas oportunidades, pois a resolução dos problemas é algo que ele já está acostumado a fazer no dia a dia, mesmo em períodos de normalidade. Sem dúvida, a crise vai reduzir a demanda e, portanto, as perspectivas de vendas do comércio. Contudo, cabe ao empreendedor encontrar os caminhos para o crescimento. Assim, tenho certeza, os próximos anos serão de expansão da atividade econômica no setor terciário gaúcho. A recuperação da economia poderá ser lenta, uma vez que não depende apenas da ação do empreendedor. Por isso, a resiliência em empreender mesmo perante a crise, algo que é característico do empresário gaúcho, será a principal força motriz da recuperação.