Entrevista - Pedro Hoffman - Presidente da Abrasel/RS
Ser sede de uma Copa do Mundo, mais do que motivo de festa e alegria, é uma responsabiidade gigante. Tudo deve estar funcionando perfeitamente para que os padrões FIFA sejam respeitados, mas acima de tudo, pra que o turista sinta-se bem tratado e volte outras vezes, acelerando o comércio e gerando emprego e renda aos gaúchos. Para Pedro Hoffman, presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes, secção do RS, os empreendimentos gastronômicos e hoteleiros já foram postos à prova por ocasião da realização de grandes eventos, como no caso do Fórum Social Mundial. Saiba o que prcis ser reforçado referenteà segurança alimentar, boas práticas de atendimento, vendas com ênfase em línguas, dentre outras, nessa entrevista exclusiva ao Capital Gaúcha.

Capital Gaúcha - Sr.Hoffman, qual a sua expectativa em relação ao número de turistas que poderão visitar Porto Alegre durante a Copa do Mundo de 2014? Quais investimentos a nossa rede hoteleira e alimentícia deve receber para atender a demanda gerada pelo evento?

Hoffman - De modo geral, diria que o número de turistas está diretamente atrelado às seleções que nossa cidade vai sediar. Se forem de países com maior poder aquisitivo e com forte tradição futebolística, ele tende a ser maior. Se forem de países mais pobres e com menor tradição, ele certamente será menor. Os empreendimentos gastronômicos e hoteleiros já foram postos à prova por ocasião da realização de grandes eventos, como no caso do Fórum Social Mundial. Devemos aprimorar, no entanto, questões referentes à segurança alimentar, boas praticas de atendimento, vendas com ênfase em línguas, dentre outras.

Capital Gaúcha - Um evento desse porte atrai os olhares do mundo e consequentemente de empresas estrangeiras interessadas em investir em diversas áreas. No que diz respeito a bares e restaurantes, o senhor acha que virão investimentos do exterior ou mesmo a chegada de redes mundiais de restaurantes que até então se concentram apenas no centro do país?

Hoffman - Acredito que se formos eficientes na condução da Copa de 2014, poder público, sociedade civil organizada e empresas, Porto Alegre poderá despertar o interesse de novos mercados. È lógico que todo empreendedor analisa uma série de questões, sobretudo oferta e demanda. Neste sentido Porto Alegre é muito bem suprida. Temos empresas de grande relevância no segmento, ao mesmo tempo que produzimos alimentos do mesmo nível daqueles encontrados nos mais importantes centros do país e do mundo, tanto no que se refere à diversidade, quanto à qualidade de nosso produto. Se de fato acontecer isso, devemos estar preparados para absorver a concorrência sadia.

Capital Gaúcha - Na sua visão, as políticas públicas que vem sendo desenvolvidas na cidade e no estado apoiam esse desenvolvimento súbito da capital?

Hoffman - Acredito que o desenvolvimento de nosso setor passa, necessariamente, pelo fortalecimento de nossa categoria. Aliás, este é o propósito maior de nossa entidade. Quanto mais fortes e representativos formos, mais atenção vamos merecer do poder público. Vale destacar que o advento da Copa 2014 vai nos auxiliar bastante neste sentido. A Abrasel tem assento permanente no Comitê Gestor da Copa 2014, ação conduzida pelo vice-prefeito José Fortunati. Nossa participação neste seleto grupo pretende oferecer subsídios que atendam simultaneamente nossas maiores carências e a consolidação de nossa cidade enquanto destino turístico.

Capital Gaúcha - Em termos de infra-estrutura, qual o maior déficit na capital? Qual vai ser a contribuição do Pontal do Estaleiro e do Projeto de Revitalização do Cais do Porto para o setor de bares, restaurantes e hotéis?

Hoffman - Sinalização de pontos turísticos e de outras regiões, carência de iluminação em alguns pontos e falta de transporte público em horários alternativos, atendendo não só aos usuários, mas fundamentalmente nossos colaboradores. A revitalização é velha conhecida de todos nós. Uma antiga reivindicação dos porto-alegrenses. Com certeza, quanto melhores forem as condições de bem receber e atender ao público consumidor, favorecidos por um verdadeiro cartão postal de nossa cidade, maiores serão as chances de nossos negócios e do mercado de modo geral prosperar naquele local.

Capital Gaúcha - Qual a importância da revitalização do Centro para o setor? O sr. acredta que essa seja uma obra viável até a Copa realizada no Brasil?

Hoffman - O Centro, como diz o nome, serve de referência para os moradores e visitantes das cidades. Todas as regiões que centralizarão pessoas vão merecer avaliação e possivelmente investimentos. A revitalização desta parte de nossa cidade, neste contexto, vai merecer aprimoramentos bastante singulares. Com certeza, todo reformulação positiva será bem-vinda, não somente para a gastronomia, mas para todos os comerciantes e usuários.

Capital Gaúcha - O zoneamento urbano vai ajudar ou complicar a situação do setor? A formação de "pólos" com casas noturnas, restaurantes, hotéis é uma idéia válida ou as ações do zoneamento acabam freando o desenvolvimento do setor?

Hoffman - Os pólos são uma tendência, sucesso em muitas regiões de nosso país e no mundo. Cada vez mais os usuários preferem se deslocar o mínimo possível durante suas programações, seja pelo trânsito conturbado, seja pela falta de segurança, enfim, por uma série de fatores. Com isso, criam-se pequenos universos apropriados para o consumo. Vamos tomar por exemplo o bairro Moinhos de Vento. Você acredita que, se existisse um ambiente similar na zona sul de Porto Alegre, as pessoas daquela região iriam se deslocar para cá com a mesma freqüência? Haveria em determinado momento o desenvolvimento de alguns e a consolidação de outros. Não vejo prejuízo ao mercado, coisas que o próprio mercado se encarrega em regular.

Capital Gaúcha - Quantos empregos o senhor espera que sejam gerados no setor com a Copa do Mundo? E quantos seriam mantidos após o término do evento? Que qualificações o profissional deve buscar para conseguir uma oportunidade durante esse período?

Hoffman - Nosso segmento é responsável pela absorção de muita mão de obra, sobretudo aquela sem qualificação e proveniente do primeiro emprego. È bastante comum encontrarmos proprietários de grandes investimentos que começaram sua vida profissional no setor, em atribuições bastante simples e são exemplo de sucesso, o que nos caracteriza como fonte de ascensão e crescimento social. A criação e a manutenção de vagas serão reguladas pela necessidade do mercado. Quanto mais empresas se constituírem e vierem a se consolidar, maior será a chance do mercado absorver esta mão de obra. Nossa entidade já promove, em parceria com o Sebrae e o Ministério do Turismo, o "Projeto Caminhos do Sabor – A União faz o Destino". Esse arrojado e moderno projeto visa a qualificar empresas e colaboradores. Se contarmos com o efetivo apoio das esferas públicas e, ao que tudo indica, isso vai acontecer, podemos estender o número de empresas assistidas. As autoridades estão atentas ao papel da gastronomia no desenvolvimento do turismo, sendo que 40% do PIB turismo provem do setor. Vamos perseguir o aprimoramento de nossas empresas e será bem-vinda a contribuição do Poder Púbico.

Capital Gaúcha - Quais iniciativas a entidade pretende desenvolver, já a curto prazo, no intuito de orientar as empresas para que estas consigam prestar um serviço à altura de um evento desse porte?

Hoffman - Vamos prosseguir com o Projeto Caminhos do Sabor em nossa cidade e em Bento Gonçalves. Tão logo terminemos a implantação das ações previstas no escopo do projeto para estas cidades, vamos procurar alternativas para estender qualificação às nossas empresas, passando, por todos os níveis hierárquicos, desde funções mais básicas, mas não menos importantes, até os cargos de gerência e de direção. Vamos enfatizar aprimoramento no atendimento, na segurança dos alimentos, na gestão empresarial, na educação continuada e na tradução de cardápios, visando à profissionalização de nossas empresas. Acreditamos que muito ainda pode ser feito, a exemplo do recente encontro da Abrasel em Porto Alegre, que reuniu empresários do segmento de todas as partes do país, com vistas a fomentar a qualificação do setor. Vamos continuar empreendendo nossas ações, como o "Bar em Bar", "Brasil Sabor e Guia", dentre outros, pois acreditamos que elas possam distinguir as empresas a elas vinculadas, e, sobretudo, vamos procurar parceiros para alcançar os índices de desenvolvimento, profissionalização e qualificação que entendemos necessários para nosso setor.