A
crise que acumulou
perdas
e freou o
crescimento registrado
nos últimos anos, atingiu setores
importantes da área industrial.
Após a passagem do
período mais
turbulento, como
está reagindo o setor no RS?
Quais as perspectivas para que
ele retome os índices
de produtividade
e crescimento registrados no
período pré-crise? Paulo Tigre,
presidente
da Federação e
Centro das Indústrias
do Rio Grande do Sul (FIERGS)
responde
a essas e outras perguntas exclusivamente
aos leitores do Capital Gaúcha. |
Capital
Gaúcha - Qual
o perfil do setor industrial do Rio Grande
do Sul?
Paulo
Tigre - O parque fabril do Rio Grande do
Sul é bastante diversificado, com
empresas presentes em vários segmentos
da cadeia produtiva. É difícil
dizer a importância de um segmento apenas
analisando sua participação no
PIB. Por exemplo, levando em conta esse indicador,
cinco atividades representam mais da metade
do valor produzido: alimentos e bebidas, produtos
químicos, máquinas e equipamentos,
montagem de veículos e fabricação
de calçados. Esses também representam
a maior parte das exportações,
que ainda conta com a forte presença
do segmento de fumo. Porém, os mesmos
não seriam competitivos se não
existisse no Estado uma forte indústria
de produtos intermediários, como borracha,
plástico, couro e metalurgia básica
e também fornecedora de componentes,
como material eletrônico e equipamentos
elétricos.
A matriz industrial do Rio Grande do Sul é complexa,
com várias ligações entre
os segmentos e uma presença forte, tanto
no mercado interno quanto externo. A indústria é um
dos principais vetores da dinâmica da
economia gaúcha.
Capital
Gaúcha - Qual a situação
do Estado e do País com a crise mundial,
que completou um ano em setembro?
Paulo
Tigre - Ainda não temos a
visão
completa de todas as mudanças que estão
ocorrendo. Isto porque a saída das dificuldades
vem sendo heterogênea entre os países.
O Brasil, nesse cenário, está bem
melhor do que outras nações,
fato reconhecido até no âmbito
internacional. A fase de saída da crise
em que nos encontramos tem a marca da recuperação
das perdas ocorridas. A FIERGS vêm monitorando
os efeitos do colapso mundial na economia brasileira
desde
setembro de 2008. Agora, defendemos a mudança
do enfoque para que as discussões de
medidas anticrise se transformem em decisões “pró-crescimento”.
O Brasil tem todas as condições
para acompanhar as mudanças globais
e conquistar um novo patamar competitivo, melhorando
a posição no ranking internacional.
Afinal, crise também é oportunidade.
Capital
Gaúcha - Que mudanças
de enfoque são essas?
Paulo
Tigre - Para o Brasil aprender e aplicar
as lições aprendidas nesse
cenário
de dificuldades, as principais questões
que devem ser implementadas são: tributação
menor para dinamizar os mercados, juros mais
baixos, redução dos spreads,
ampliação do acesso ao crédito,
criação de programas setoriais
focados para resolver dificuldades agudas e
tornar o papel do BNDES como efetivo Banco
de Desenvolvimento Econômico e Social.
Um sinal de que com estas medidas conseguiremos
nos recuperar e crescer é a importância
que o mercado interno teve para minimizar os
impactos da crise. Por exemplo, com a diminuição
da tributação em alguns segmentos,
como de automóveis, os negócios
foram dinamizados, comprovando a tese que defendemos,
ou seja, uma reforma tributária simplificadora.
Capital
Gaúcha - Que segmentos
industriais foram mais afetados pela atual
conjuntura econômica?
Paulo
Tigre - A indústria no Brasil
foi o segmento que mais sofreu com a atual
crise internacional, resultado das restrições
de crédito, da redução
da demanda por exportações e
dos investimentos. No Rio Grande do Sul não
foi diferente pela característica exportadora
das indústrias gaúchas e o fato
de ser grande produtora de bens de capital.
Analisando o setor a partir do início
da turbulência, em outubro do ano passado,
nota-se que, de um total de 17 segmentos, apenas
três não tiveram queda do faturamento:
fumo, calçados e máquinas, aparelhos
e materiais elétricos. Todos os demais
foram atingidos. Porém, devido à diversificação
do parque industrial gaúcho, o resultado
da crise foi bastante heterogêneo. Por
exemplo, no segmento exportador, a queda da
demanda externa resultou em menores receitas
com essa atividade, principalmente para a indústria
de alimentos, calçados, metalurgia básica
e veículos. Nesses últimos dez
meses, estima-se que a indústria do
Rio Grande do Sul deixou de exportar aproximadamente
US$ 5,5 bilhões. No caso dos empregos,
o recuo foi generalizado e as maiores retrações
ficaram nas atividades de produção
de borracha, metalurgia básica e máquinas
agrícolas. No total, a indústria
gaúcha fechou o equivalente a 34 mil
empregos entre outubro de 2008 a julho de 2009,
de um total de 620 mil trabalhadores que estavam
em atividade no período pré-crise.
Capital
Gaúcha - Qual é a previsão
de crescimento da indústria do Rio Grande
do Sul em 2009 e para 2010?
Paulo
Tigre - Uma perspectiva coerente para o setor
no Rio Grande do Sul em 2009, a despeito
de todas as incertezas com os impactos da crise,
deve considerar dois elementos: as exportações
e o mercado interno. Os recentes números
de recuperação da atividade em
várias economias no cenário internacional
indicam que teremos, pelos próximos
meses, uma performance distinta entre os países
desenvolvidos e emergentes. No primeiro caso,
a recuperação deverá ser
mais lenta, podendo se consolidar a partir
de 2010. Já no segundo grupo, a retomada é uma
realidade, com destaque para a região
da Ásia. Como a indústria do
Rio Grande do Sul é mais voltada para
os EUA e à Europa, é bem provável
que, do ponto de vista da demanda externa,
a recuperação ocorra de forma
gradual ao longo dos próximos meses.Porém,
no cenário interno as notícias
são melhores, ao menos no curto prazo.
O consumo das famílias continua a crescer,
a oferta de crédito está sendo
retomada e os empregos em recuperação.
Mesmo assim, os impactos da crise ainda devem
ser sentidos pelos próximos meses o
que pode resultar em números abaixo
dos verificados no ano de 2008. Assim, no caso
das exportações, a expectativa é de
uma queda de 23%. Esse resultado deve prejudicar
a recuperação do faturamento,
cuja projeção é de que
encerre o ano com retração de
10% sobre 2008. Por fim, mesmo com a retomada
da produção verificada nos últimos
meses, essa deve cair 8,5%. Justamente porque
no ano passado o nível de produção
era elevado. Como efeito dessa lenta recuperação
da produção, a expectativa é que
sejam necessários pelo menos 12 meses
para se chegar no mesmo volume de emprego do
período pré-crise. Como pode
ser visto, os bons números estão
reservados para 2010. De qualquer forma, apesar
desse cenário, as perspectivas hoje
são muito melhores do que as projeções
que se colocavam no início do ano.
Capital
Gaúcha - Diante desses dados,
quais as suas projeções
futuras?
Paulo
Tigre - Como os impactos da crise foram verificados
em todos os setores industriais
no Estado e no Brasil, apesar da sua intensidade
não ter sido homogênea entre eles,
a recuperação também será gradual
e lenta. Temos um longo caminho a trilhar,
que vai até maio de 2010, se a economia
crescer 1% ao mês. Lá, então, é que
começaremos a crescer, pois enquanto
isso estaremos somente recuperando perdas.
A partir de agora vamos crescer dentro de outro
mundo, outro País, em outras circunstancias
e teremos que nos adaptar, pois as mudanças
importantes que vinham acontecendo foram apressadas
após a crise, como a nova matriz energética
internacional e uma regulamentação
do sistema financeiro.