Entrevista - Mauro Knijnik - Presidente da Fundação Bienal do Mercosul
Acontece entre os dias 16 de outubro e 29 de novembro, em Porto Alegre, a 7ª Bienal do Mercosul. Com uma intensa programação mesmo antes de seu início, o evento promete mais uma vez se destacar pela inovação e pela variedade de atividades culturais desenvolvidas paralelamente às exposições. Exclusivamente ao Capital Gaúcha, o Presidente da Fundação Bienal do Mercosul, Mauro Knijnik, fala sobre as principais inciativas que já estão sendo desenvolvidas e conta quais serão as principais atrações dessa sétima edição.

Capital Gaúcha - A programação pré-Bienal está muito intensa, tendo começado ainda em julho. Quais as principais atividades que poderiam ser destacadas nesse período que antecede o evento?

Mauro Knijnik – São muitas as atividades que aconteceram e estão acontecendo neste período, envolvendo a comunidade de Porto Alegre e outras regiões do Rio Grande do Sul. Entre os meses de maio e agosto, realizamos uma convocatória aberta a artistas do mundo para participação em uma das exposições – Projetáveis, que recebeu cerca de 800 inscrições de artistas de quase 50 países. A exposição, que será apresentada no Santander Cultural, vai mostrar 19 obras de 25 artistas, que estarão também na web através do site www.bienalmercosul.art.br. Outros 13 artistas terão seus trabalhos exibidos no site. Nos dias 21 e 22 de julho, a 7ª Bienal do Mercosul promoveu a Mesa de Encontros – Artistas em Disponibilidade: a educação como espaço para o desenvolvimento de micropolis experimentais, em Porto Alegre. Cerca de 600 educadores, artistas, estudantes e outros profissionais se inscreveram para participar dos Encontros com o objetivo de conhecer e discutir os projetos educativos dos artistas que participam do Programa de Residências do Projeto Pedagógico desta edição da Bienal. Os artistas apresentaram publicamente seus projetos com o objetivo de confrontar e debater suas propostas com profissionais internacionais interessados nos valores da arte como ferramenta para a educação. Após a Mesa de Encontros os artistas em residência deram início aos seus projetos, e muitos deles já estão em andamento neste momento. O Projeto Pedagógico da 7ª Bienal do Mercosul convidou 14 artistas que estão aplicando suas próprias metodologias educativas em comunidades de diferentes regiões do estado do Rio Grande do Sul. O objetivo final é inserir esses projetos artísticos dentro do sistema educativo e incentivar a interdisciplinaridade como lugar de encontro entre práticas artísticas e não-artísticas. De agosto a outubro, serão realizadas três residências em Porto Alegre e na Grande Porto Alegre. As outras residências serão realizadas no mesmo período, nas seguintes cidades do Rio Grande do Sul: São Leopoldo, Lajeado, Pelotas, Caxias do Sul, Santa Maria, Santana do Livramento, Tavares e Riozinho. Participam das residências quatro artistas brasileiros (João Modé - Projeto REDE; Júlio Lira - Percursos Urbanos – escuta na cidade, ruído na Bienal; Ricardo Basbaum – Você gostaria de participar de uma experiência artística?; Maria Helena Bernardes e André Severo - Arte da conversação); quatro artistas da Argentina (Diana Aisenberg - História(s) da arte - Dicionário de Certezas e Intuições / Historia(s) del art Diccionario de Certezas e Intuiciones; Claudia del Río – Clube do desenho/Club del dibujo; Diego Melero – A Filosofia política no Ginásio/La Filosofía política en la gimnasia; Rosario Bléfari – Oficina de canções / Taller de canciones), um artista da Colômbia (Nicolás Paris - Laboratório de desenho/Laboratorio de dibujo), um curador do Chile (Gonzalo Pedraza – Coleção Vicinal/Colección Vecinal); um coletivo de artistas do Uruguai (Francisco Tomsich e Martín Verges – Transposição de um estudo para um retrato comum / Traspuesto de un Estudio para un Retrato Común) e um artista francês (Nicolás Floc`h - A grande troca, projeto para desejos coletivos). A 7 ª Bienal do Mercosul também está convidando artistas de todas as áreas para a performance participativa Musicircus, de John Cage. O evento vai acontecer no final de semana de abertura da 7ª Bienal, no Armazém A7 do Cais do Porto, no dia 17 de Outubro. A performance trata de atividades simultâneas de vários artistas dentro do mesmo espaço. Esta será a primeira vez que Musicircus será apresentado no Brasil, desde que foi criado em 1967. Os interessados em participar devem se inscrever até o dia 25 de setembro, enviando uma ou mais propostas de trabalho para serem realizadas em qualquer formato ou disciplina artística para o email musicircus@bienalmercosul.art.br. E até o dia 04 de outubro acontece no Santander Cultural a Pré-Bienal: Índices e Anotações, um ampla programação de filmes, shows, palestras e oficinas educativas que debatem e apresentam os bastidores da 7ª Bienal do Mercosul e o processo criativo dos artistas e sua relação com diversas áreas do conhecimento.

Capital Gaúcha - Em relação à Bienal anterior, realizada em 2007, que mudanças poderão ser observadas?

Mauro Knijnik - Creio que para falar sobre isso é importante voltar um pouco na história e reconhecer que o processo evolutivo das Bienais do Mercosul tem sido marcado por inovações constantes. Desde 2007, a Bienal do Mercosul vem adotando um modelo curatorial que intensificou a internacionalização da mostra, o que tem atraído crescente número de colecionadores, críticos, historiadores e diretores de instituições culturais, tanto do Brasil quanto do exterior. Outra peculiaridade deste momento foi a ênfase na educação. O projeto pedagógico se intensificou e passou a ser um projeto totalmente integrado ao projeto curatorial.Cada edição é diferente da outra, pois cada curador tem a liberdade de abordar o evento de uma forma completamente personalizada. Podemos dizer que o projeto de internacionalização da Bienal do Mercosul, iniciado na edição anterior, se intensificou nesta edição. Também o Projeto Pedagógico, cuja importância no evento foi consolidada e reconhecida em 2007, ampliou seu alcance promovendo ações que envolvem comunidades de todo o estado e de países como Argentina, Uruguai e Paraguai. Outra novidade do projeto curatorial da 7ª Bienal do Mercosul é a criação do programa Radiovisual, que será transmitido diariamente pela Rádio FM Cultura durante o período da Bienal e que apresentará obras sonoras produzidas por artistas. É a primeira manifestação de radio-arte na história desta Bienal.

Capital Gaúcha - O que o evento pretende destacar e mostrar com o título "Grito e Escuta"?

Mauro Knijnik - O projeto da 7ª Bienal do Mercosul afirma o sentido e a importância dos artistas como atores sociais e constantes produtores de um sentido crítico necessário. O título desta edição, Grito e Escuta, explora a comunicação multidirecional – entre um mundo em conflito e um artista que escuta e responde; entre um artista que produz sentido com a intenção de que o mundo o escute – através de múltiplas linguagens. Mais que trabalhar com um tema, a 7ª Bienal do Mercosul propõe uma série de metodologias e ações que demonstrem a diversidade de abordagens e funções que a arte contemporânea apresenta. Nas palavras dos curadores-gerais, Grito e Escuta é um elo de ligação entre dois pólos: enfatiza a importância da ação (o grito) do artista que produz uma ação imediata e ativa, com a intenção de causar impacto e transformações importantes; e apela para o poder da escuta, do ouvir, provocando uma atitude reflexiva, resgatando o poder do diálogo como modelo de construção para uma sociedade melhor.

Capital Gaúcha - Quais os principais destaques dessa edição?

Mauro Knijnik - O principal destaque desta edição é o intercâmbio total entre exposições e programas, e entre os artistas e obras que fazem parte de diversas instâncias da Bienal. Ação e reflexão (Grito e Escuta) são ferramentas que articulam a 7ª Bienal do Mercosul. Por isso, esta Bienal destaca uma série de valores, como a riqueza e complexidade do olhar artístico, a reflexão sobre o papel que os artistas desempenham no mundo contemporâneo, a revalorização do artista como um ator social e constante produtor de um sentido crítico necessário. É uma Bienal cujo sistema de trabalho está centrado nos processos de criação, por isso a equipe curatorial formada quase totalmente por artistas. A 7ª Bienal do Mercosul vai apresentar sete exposições e três programas, o Projeto Pedagógico, a Curadoria Editorial e a Radiovisual. Dentro da curadoria pedagógica, destacam-se a aplicação de propostas educativas desenvolvidas por artistas em programas de residências, os projetos educativos que levam a Bienal ao interior do RS e a outros estados do Brasil, com participação ativa das comunidades e os projetos que propõem uma descentralização da Bienal e incentivam o diálogo entre as comunidades artísticas de cidades da América Latina.
Nesta edição temos uma Curadoria Editorial responsável pela imagem e comunicação do evento e que vai dar conta de todas as publicações, campanhas e design de materiais. Outro destaque é o diálogo proposto com a cidade de Porto Alegre, através de uma produção ativa de obras de artistas em Porto Alegre para as exposições, uma exposição que se articula em torno do espaço público da capital gaúcha, o estímulo à participação dos ateliês e oficinas educativas existentes na cidade, além de programas culturais que envolvem a comunidade e a Radiovisual. Também é importante dizer que no final de semana de abertura da 7ª Bienal do Mercosul (16 a 18 de outubro) acontece uma série de performances e outros eventos, que marcam o início desta edição.

Capital Gaúcha - Para a realização e organização de um evento desse porte, as parcerias com as iniciativas pública e privada são necessárias e sempre bem vindas. Quais já foram concretizadas até o momento e quais ainda estão previstas?

Mauro Knijnik - A implementação deste amplo projeto fundou-se numa produtiva rede de parcerias estabelecida com órgãos públicos e organizações do terceiro setor. A Bienal é fruto de um trabalho conjunto, colaborativo e é resultado da dedicação de um grande número de pessoas, organizações, empresas e governos do Brasil, do estado do Rio Grande do Sul e do município de Porto Alegre. Empresas patrocinadoras e apoiadoras, dentro de seus respectivos programas de sustentabilidade e responsabilidade social, aportam recursos, produtos e serviços que viabilizam o conjunto das ações que compõem o projeto. As leis federal e estadual de incentivos fiscais à cultura, assim como a ação direta dos governos federal, estadual, municipal e de governos estrangeiros, oferecem as bases para o financiamento e materialização desse projeto. Para esta edição, contamos com o fundamental apoio das seguintes empresas e organizações: Gerdau; Petrobras; Santander Cultural (instituição do Grupo Santander Brasil, formado pelos bancos Santander e Real); Banrisul – Banco do Estado do Rio Grande do Sul; CEEE – Companhia Estadual de Energia Elétrica; Procempa – Processamento de Dados do Município de Porto Alegre; Governo do Estado do Rio Grande do Sul; Secretaria de Estado da Cultura; Secretaria Estadual da Educação; Prefeitura de Porto Alegre; Secretaria Municipal de Cultura de Porto Alegre; Crown Embalagens; Grupo SLC; Lojas Renner; Ferramentas Gedore; Sulgás; Panvel; Todos pela Educação; França.BR 2009 – Ano da França no Brasil e Centro Cultural de Espanha no Paraguai, Uruguai e Argentina. Apoio governamental: Governo da Argentina - Dirección de Asuntos Culturales do Ministerio de Relaciones Exteriores, Comercio Internacional y Culto da República Argentina; Governo do Chile - Dirección de Asuntos Culturales - Ministerio de Relaciones Exteriores do Chile e Consejo Nacional de la Cultura y las Artes; e Governo do México. O projeto da 7ª Bienal do Mercosul é financiado através da Lei de Incentivo à Cultura do MinC – Ministério da Cultura e da LIC – Lei de Incentivo à Cultura do Governo do Estado do Rio Grande do Sul. As secretarias de cultura e educação de vários municípios do Rio Grande do Sul também oferecem um grande suporte à realização das ações do Projeto Pedagógico em suas cidades. E nós acreditamos que muitas parcerias ainda estão por vir, pois a Bienal do Mercosul se constitui num enorme investimento, cujos resultados não se restringem ao presente, mas serão percebidos também no futuro.