O
RS vem sofrendo problemas de ordem
natural e estrutural, que, pela falta
de planejamento e investimento, impedem
o mesmo de se desenvolver no ritmo
almejado. Secas, estradas sem asfalto
e enfraquecimento do poder econômico
dos municípios são
alguns dos temas que merecem maior
atenção. Tentando apontar
soluções para estas
questões, o novo Presidente
da Federação das Associações
de Municípios do RS(FAMURS)
e prefeito de Sentinela do Sul, Marcus
Vinicius Vieira de Almeida, explica
aos leitores do Capital Gaúcha
como a entidade pode pressionar os órgãos
competentes e agir buscando solucionar
problemas que a muito tempo prejudicam
boa parte dos gaúchos.
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Capital
Gaúcha - Quais os seus principais
projetos e quais serão os seus principais
desafios da sua gestão a frente da
Famurs?
Marcus
Vinicius – A gestão
vai estar centrada em três pontos principais:
fortalecer a Famurs, popularizar o municipalismo
e a própria entidade e difundir uma
melhor compreensão sobre o papel dos
gestores e dos governos locais. Entre os
projetos está:
1
- Realizar uma grande feira de articulação
entre municípios, governo do estado
e governo federal. Na oportunidade, técnicos
e políticos das três esferas terão
contato direto e objetivo, abordando projetos
viáveis para que as prefeituras obtenham
verbas para utilizarem nas políticas
municipais em favor de suas comunidades.
2 - Ingressar nos grandes debates de políticas
públicas do estado, entre eles, a definição
de investimentos e estratégias de desenvolvimento.
3 - Aprofundar a parceria e diálogo entre
Famurs e Ministério Público, dando
sequência aos cursos e atividades conjuntas.
4 - Promover fóruns de debate e aproximação
com os formadores de opinião, objetivando
melhor informá-los da função
e dos dilemas do cotidiano de um prefeito.
5 - Ampliar a participação dos vice-prefeitos.
6 - Realizar eventos da Famurs em locais de maior
visibilidade e de melhor acesso ao público
externo tais como universidades, associações
e cooperativas.
Como desafios estão a discussão do
pacto federativo, propondo uma maior autonomia política
e administrativa para os municípios, assim
como a Reforma Tributária, para rever a distribuição
do bolo tributário nacional. Hoje, de todos
os impostos arrecadados no país, a União
fica com 61,5%, os Estados com 24,1% e os municípios
com 14,45%. Apesar disso, nos últimos dez
anos, com a chamada municipalização,
os municípios assumiram diversos serviços
sem o devido ressarcimento do estado ou da união.
Eles precisam de uma reforma tributária que
contemple seus anseios. É necessário
uma maior eficiência na redução
das desigualdades regionais e um sistema de partilhas
mais condizente com as atribuições
dos entes federados. A clara falta de definição
das competências obriga os municípios
a suprirem as omissões da união e do
estado na prestação de serviços
vitais à população, como por
exemplo na área da saúde. Entre as
principais falhas do atual sistema, o que mais prejudica
os mesmos é a falta de mecanismos de proteção
contra oscilações de receita geradas
pela união e pelos estados, assim como a dependência
das transferências sem o poder de intervenção.
Capital
Gaúcha – O 29º Congresso
de Municípios do RS, que ocorreu entre
os dias 16 e 18 de junho, teve como tema
a municipalização da saúde.
O que de fato já se conquistou nessa área
e o que ainda precisa se debatido e colocado
em prática?
Marcus
Vinicius - A sociedade precisa saber
que hoje são os municípios
quem cumprem a parte que lhes compete na
prestação dos serviços
de saúde. Nos últimos 7 anos,
os investimentos dos Municípios em
saúde cresceram mais de 206%. Hoje,
mais de 800 mil trabalhadores públicos
em saúde no país são
de responsabilidade dos 5.562 Municípios
brasileiros. Além disso, este número
significa mais de 66% do total de trabalhadores
em saúde do Brasil. Um levantamento
feito pela Confederação Nacional
de Municípios mostrou que mais de
98% das prefeituras aplica na saúde
acima de 15% da sua receita. A média
das prefeituras é de 23,5% de investimento
de sua receita na saúde, quando deveriam
aplicar 15%. Já o estado, que teria
aplicar 12% na saúde, aplica nunca
mais que 5%. O que está errado é que
as competências da União, Estados
e Municípios, no que se refere à prestação
dos serviços de saúde, ainda
não foram regulamentadas totalmente.
Nossa luta é pela regulamentação
da Emenda Constitucional 29, que representa
um importante avanço para diminuir
a instabilidade no financiamento que o setor
de saúde enfrenta, desde que bem direcionada,
aliada a revisão do Pacto Federativo.
Pela EC 29, os municípios deverão
aplicar 15% de sua receita em saúde,
os estados 12% e a União 10%. A emenda
prevê uma grande injeção
de recursos para a saúde.
Capital
Gaúcha – A sua região,
a Centro Sul, sofreu muito com os efeitos
das últimas estiagens que passaram
por aqui nos últimos anos. Exatamente
por esse não ser um problema novo,
o que deve ser feito para que ele não
volte a ocorrer ou que tenha seus efeitos
minimizados já para o próximo
ano?
Marcus
Vinicius - Quanto à questão
da seca, em função da pressão
da Famurs, juntamente com outras entidades,
o governo federal anunciou a liberação
de R$ 40 milhões como medida de ajuda,
assim como, outros R$ 14 milhões para
a construção de cisternas e
aberturas de poços. Porém,
para a liberação dos recursos
sempre há muita burocracia e os recursos.
Nem sempre os recursos chegam aos Municípios,
e quando as prefeituras recebem o estado
de emergência já passou. A Famurs
vem realizando agora um trabalho com o governo
do Estado, por meio da Secretaria de Estados
das Relações Institucionais
e Defesa Civil,para que a verba anunciada
pela União chegue efetivamente aos
municípios. Estamos viabilizando que
esta verba seja usada na compra de retroescavadeiras
e na construção de redes de água.
Essas medidas, entre outras, que o governo
do Estado vem adotando como abertura de poços,
ajudará os Municípios, a enfrentar
a seca. A Famurs também reivindica
dos governos federal e estadual um projeto
a longo prazo, com um estudo profundo na
regiões mais afetadas, isto é,
norte e nordeste do estado.
Capital
Gaúcha – Em relação
as estradas sem asfalto ou em péssimas
condições de conservação,
de que maneira a entidade pretende pressionar
os órgãos competentes para
que esses assumam seu papel e proporcionem
condições mínimas às
mesmas?
Marcus
Vinicius - A Famurs, em 2005 criou
a Comissão dos Municípios sem
Acesso Asfáltico. Essa Comissão
que hoje tem na presidência o prefeito
de Boqueirão do Leão, João
Davi Goergen, vem realizando um excelente
trabalho e tem se dedicado muito. Em 2005,
tínhamos 121 municípios sem
acesso asfáltico. Hoje esse numero
caiu para 114 municípios. Ainda há muito
para ser feito. Mensalmente, a Comissão
se reúne com representantes do governo
do Estado, através da Secretaria de
Estado da Infra-estrutura e Logística,
e cobra o andamento das obras. Infelizmente
a área de estradas é uma área
que significa investimentos. Porém,
quando se atravessa uma crise como essa última
financeira mundial, os investimentos em estradas
são os primeiros a terem redução
de verbas da União, como Estado. Queremos
ampliar a ação do setor de
trânsito da Famurs, que passará a
abranger também a área de ligações
asfálticas e pedágios. A entidade
precisa entrar com força nessa discussão,
com especial atenção aos municípios
sem acesso asfáltico.