Entrevista - Marcos Jardim - Diretor da Suzuki Sagara
A divisão de automóveis da Suzuki está de volta ao Brasil. Com novo importador e uma nova filosofia, a marca chega para consquistar novos clientes e ser uma alternativa para os "órfãos de Suzuki". Essa é a afirmação de Marcos Jardim, Diretor da Sagara, única revenda da marca no sul do país até o momento. Em entrevista exclusiva ao Capital Gaúcha, ele conta os motivos da saída da empresa do Brasil em 2003 e como a marca pretende trabalhar para voltar a ter por aqui toda a credibilidade e confiança que já obtém em outras partes do mundo.

Capital Gaúcha - Seja bem vinda a Suzuki a Porto Alegre. E parece que a marca que já chegou com força. Como estão os pedidos?

Marcos - Estão bem, pois nós tínhamos uma previsão de começar devagar, até por que nós estamos ainda passando por um momento de crise. E supreendeu bastante, bem positivamente. Nós tínhamos uma meta mínima estipulada pela Suzuki e nós estamos conseguindo superar essas metas sempre. Já nos econtramos há dois meses seguidos em quinto lugar no Brasil entre as vinte concessionárias que operam no momento, sendo que algumas abriram entre os meses de outubro e novembro. Então acho que estamos muito bem.

Capital Gaúcha - O momento da entrada da marca foi facilitado ou dificultado pela crise?

Marcos - Eu acho que nós tivemos sorte no fim, porque a nossa idéia era abrir em dezembro. Mas tivemos um pouco de sorte porque pegamos apenas o finalzinho da crise e ainda contamos com o incentivo do governo na questão da redução IPI, o que de repente o pessoal lá em outubro e novembro não teve. Claro que da mesma maneira que nós temos, os outros concorrentes também tem. Mas isso gerou um aquecimento no mercado muito forte, que no final do ano passado, no auge da crise, com bolsa caindo e o Dólar indo lá em cima, iria ser muito complicado entrar. Então acabamos pegando um momento bem melhor. E a marca tem um nome aqui no RS diferente do que tem no restante do país. Eu notei que logo que nós abrimos, muitas pessoas paravam na frente da loja com os Suzukis Vitaras 98, 99, 2000, 2001, que são veículos que já sofreram uma desvalorização forte, até pelo tempo de utilização. E o cliente chegou aqui e comprou um Vitara zero quilômetro. Quer dizer, dinheiro para comprar outro carro ele tinha, o que faltava era realmente ter um produto no mercado que agradasse tanto quanto o Suzuki. Nós brincamos aqui na loja que esses são os "órfãos do Suzuki", porque querendo ou não eles ficaram perdidos no mercado, pois tiveram quatro ou cinco Vitaras ou Samurai, eram apaixonados pela marca e, de repente, a Suzuki saiu. Então ficou ruim para a marca, sujou um pouco o nome dela. Mas estamos notando que o fato de nós termos uma concessionária grande, que demostra respeito e que tem peças, acessórios, oficina completa, em um ponto bem localizado, enfim, contribui para que o cliente entre aqui e fique seguro, que ele vai comprar e saber que não irá acontecer o mesmo que aconteceu em 2003.

Capital Gaúcha - Por que a Suzuki saiu naquela ocasião e qual a diferença desse momento onde ela retorna e qual proposta estão trazendo nesse reingresso da marca no mercado gaúcho e nacional?

Marcos - Na verdade a Suzuki, em 2003, tinha um outro importador e o momento do Brasil com relação ao mundo era outro. Nesse ano, o Dólar chegou a bater em três e oitenta e eu me lembro que foi um fator que aumentou muito o valor dos carros, diminuindo as vendas. Penso que o importador daquela época não fosse muito capitalizado para se manter na crise. Tanto que várias marcas se mantiveram, diferente da Suzuki, por essa questão do importador. Naquela época, a marca vendia em Porto Alegre em torno de 120 carros por mês. Isso representa o que era a Suzuki naquele momento, que fatia de mercado que ela possuía no RS. Nesse momento em que o importador saiu, a Suzuki acredito que não tinha uma pessoa certa para substituí-lo e resolveu tomar a atitude de vender 20% do seu capital para a GM. Elas fizeram uma parceria onde a Suzuki iria produzir na Argentina o Celta com o nome de Fun e a GM, por sua vez, produziria o Vitara com o nome de Tracker aqui no Brasil. Essa parceria durou cinco anos, quatro anos e meio, até que a Suzuki recomprou os seus 20%, sendo hoje dona de 100% de seu capital no mundo.

Após essa operação, nomeou o grupo Souza Ramos como o seu importador, que é o mesmo que traz há vinte anos a Mitsubishi para o Brasil. É um importador muito sério, que já enfrentou diversas crises e é muito bem capitalizado e preparado para passar por outras crises como esta que nós estamos vivendo. A partir disso, foram nomeadas até o momento vinte concessionárias no Brasil. É evidente que como eles começaram em outubro, a idéia era de nomear um número maior de início. Mas com essa questão da crise, eles sabem, até por já terem passado por muitas outras, que as coisas começam mais devagar em momentos como esse. Então eles resolveram nomear apenas alguns pontos estratégicos no Brasil, para fortalecer bem a marca, a sua imagem e os produtos. Na sequência, a idéia é de retomar a nomeação de outras concessionárias, ficando em torno de cem concessionárias em um curto espaço de tempo.

Então eu acredito muito na marca, acho que ela é extremamente confiável, tem durabilidade, um nome extremamente forte no mundo, onde vende cerca de 2,8 milhões de carros por ano. Portanto, se o mundo acredita na marca, não tem por que o Brasil, que é um país tropical e cheio de praias, que necessita de veículos 4x4, não acreditar. Eu percebi que logo que a loja foi aberta, muitas pessoas que, como dito anteriormente, nós consideramos "órfãos de Suzuki", vinham aqui na loja e demonstravam que são apaixonados pelos nossos carros. Alguns chegam e dispensam explicações dos vendedores e técnicos, pois já sabem toda a história, motor, o que tem e o que não tem, ou seja, são realmente fanáticos pela marca. Nós vendemos para um cliente aqui que disse já ter tido dez Vitaras na vida. Ele foi a segunda pessoa que comprou em nossa concessionária. Então é bacana observar o público que compra esses carros, pois demonstram um fanatismo muito grande.

Capital Gaúcha - Qual é a meta atual de vendas estipulada pela Suzuki para vocês?

Marcos - A meta atual para a nossa loja seria em torno de 400 carros por ano. Temos novos produtos vindo já em julho, com a chegada do SX-4, que é um carro 4x4 todo o tempo, quatro portas, que é como se fosse um hatch, mas mais encorpado, já puxando para um off road, pelas suas características.

Capital Gaúcha - E ele compete em que faixa de preço?

Marcos - A gente ainda não tem muita noção de valor. Como ele virá no final de julho, início de agosto, vai depender de como estiver o Dólar, como será a entrada dele no país. Eu acredito que ele irá ficar em torno de R$ 70 mil. Mas ainda é muito cedo para saber.

Capital Gaúcha - A Sagara está atendendo apenas Porto Alegre ou todo o RS? Como é feito o atendimento à distância?

Marcos - A Sagara, no momento, é a única concessionária da Suzuki do sul do país. E o atendimento à distância é feito geralmente via telefone. O pessoal de SC tem descido muito para conhecer o produto. Também recebemos ligações do PR, mas em geral eles tem ido mais a SP, até pela distância. Outros lugares do Brasil também ligam para saber preços. A previsão é de abrir uma revenda em SC, em Itajaí, e outras três lojas no PR ainda este ano, todas operadas por outros grupos. Ai sim, nós iremos ficar apenas com o RS. Por enquanto atendemos o país inteiro, mas principalmente o sul do Brasil, por não ter nenhuma representação da marca até o momento nesses estados. Após essas instalações, há uma previsão de novas revendas Suzuki inclusive no estado.

Capital Gaúcha - É importante saber que a marca não esta voltada a um único produto. Com o tempo e a programação do importador, a tendência é que novos produtos cheguem não é mesmo?

Marcos - Com certeza. A Suzuki tem uma série de produtos no mundo. Claro que o Vitara ainda é o grande carro chefe, por toda a sua tradição, mas a marca possui uma variedade imensa de veículos sedã, hatch, mais compactos, caminhonetes maiores como a XL-7, para sete passageiros. Temos uma ampla diversidade de veículos que o importador poderá, ou não, trazer para o país. Isso vai depender de como ele avaliar o mercado e a aceitação do brasileiro. Hoje nós temos aqui a Vitara quatro cilíndros e Vitara V6, as duas completas, o Jimmy, e no meio do ano teremos, como mencionei anteriormente, o SX-4. Depois disso, poderão vir o Swift, o Balena, enfim, uma série de carros, mas tudo, claro, de acordo com a vontade do importador. Eu volto a dizer que eu acredito muito no nosso produto. Todas as vinte concessionárias abertas no país são de alto padrão, sem lugares pequenos, pois todos que abraçaram essa idéia acreditam na marca, que ela veio para ficar e que as vendas tendem a aumentar muito, triplicando, quadruplicando. Ainda é cedo para se fazer algum prognóstico, mas os números vem superando muito as nossas expectativas e nós esperamos que esse crescimento se acentue ainda mais nos próximos seis meses.

Capital Gaúcha - O senhor acha que as vantagens tributárias concedidas esse ano permanecerão?

Marcos - Para nós seria muito bom que continuasse, pois já temos toda essa questão de trabalhar com veículos importados e do dólar estar um pouco mais alto do que estava quando os veículos começaram a vir. Esses veículos da loja, por exemplo, entraram no país com o Dólar a R$ 1,60. E a redução do IPI ajuda muito nesse momento para equilibrar os valores e continuarmos a vender mais ou menos nos patamares atuais. Se a redução for retirada, torcemos para que isso aconteça de forma gradual, ou seja, 2% no primeiro mês, mais 2% no segundo, até chegar aos 6,5%, que é o que foi reduzido na nossa faixa de mercado. Se isso não for feito, acho que o mercado dará uma boa recuada. Se não tão significativa quanto muitos apostam, mas com certeza haverá uma certa estagnação nas vendas.

Capital Gaúcha - Toda a aceleração gerada no mercado automotivo em função da redução do IPI, que transformou o Brasil no único país do mundo onde essa área conseguiu sair do vermelho em 2009, não é suficiente para que nosso governantes repensem a idéia de retirar esse benefício concedido, que é apenas um dos muitos que fazem parte do valor de um carro?

Marcos - Recentemente nós tivemos um cliente aqui na loja, que é muito bem relacionado com o governo e esse afirmou ser muito difícil segurar essa redução, pois o governo, segundo uma fonte dele, estaria operando no vermelho já a algum tempo e que a volta da taxa é iminente. Ai nós poderíamos entrar em discussões políticas sobre os desvios de verbas, mensalão e tudo mais. Mas eu não vou entrar nesse mérito. O que eu penso de fato é que se cair a taxa, que seja feito de maneira gradual, pois se for feito de uma só vez será um baque muito grande para o mercado. O governo hoje está arrecadando menos imposto sobre veículos, mas ele está gerando renda para uma concessionária, para os seus funcionários, fazendo o dinheiro girar. De que adianta taxar um série de impostos no produto que ninguém vai comprar? Hoje a área de comércio de automóveis está entre as primeiras em matéria de geração de impostos. Outra coisa que não se divulga muito mas que se escuta com frequencia entre as montadoras é que se cair essa redução, elas vão ter que demitir quase instantaneamente. A GM teve lucro aqui no Brasil, diferente do que aconteceu no restante do mundo. Quer dizer, estamos no caminho certo e agora vamos mudar? Claro que a arrecadação de impostos vai aumentar, mas até que ponto isso será realmente benéfico ao governo, já que vai gerar ainda mais desemprego em um momento já complicado pela crise mundial. Vamos supor que sejam demitidos dez mil funcionários. O governo vai aumentar o benefício do bolsa família ou mesmo criar outro para sustentar essas pessoas?

Capital Gaúcha - É fácil observar a questão do valor que se paga em impostos sobre um carro quando vamos à Argentina, por exemplo, onde o mesmo carro, que vem no mesmo navio do outro lado do mundo, custa muito menos. E lá os governos estão satisfeitos com os tributos.

Marcos - Exato. Recentemente tivemos um caso aqui de um consulado que comprou um veículo e, como eles são isentos de impostos, o carro teve uma redução no preço de quase 60% do seu valor original. Quer dizer, quanto nós pagamos de imposto sem saber e o governo ainda quer nos fazer acreditar que 6,5% faz a diferença no seu orçamento.

Capital Gaúcha - O imaginário do brasileiro liga muito a marca Suzuki às motos, já que essas vieram antes no Brasil e se consolidaram como uma das marcas mais importantes do mundo no setor. As operações por aqui são separadas das dos outros veículos?

Marcos - Sim, são separadas. Claro que a marca no mundo é conjunta, mas no Brasil, veículos e motos são separados, tendo importadores e concessionárias diferentes. A qualidade e o nome são os mesmos, mas as operações, a maneira de pensar e forma de trabalhar são distintas.