Em
um momento onde escândalos abalam
a imagem do Congresso Nacional,
a transparência e a clareza
dos
atos de nossos representantes políticos
se tornam cada vez mais
urgentes e necessários. Após ter
ficado em terceiro lugar nas
eleições para a prefeitura
de Porto Alegre, a Deputada Federal
Manuela
D'Ávila continua trabalhando forte
na Câmara dos Deputados, onde
é vice-presidente da Comissão de
Trabalho da casa. Recentemente,
ajudou a aprovar a lei que regumentou
os estágios e vem promovendo debates
sobre a regulamentaçãod o uso de
internet em campanhas
eleitorais. Sempre sorridente,
a Deputada esclareceu essas e outras
questões aos leitores do Capital
Gaúcha. |
Capital
Gaúcha - Deputada,
apenas para ficar claro de uma vez por todas,
por que a Manuela não vai concorrer
ao Senado?
Manuela
- Eu não sou candidata
a esse cargo porque eu não tenho
idade. O candidato deve ter 35 anos para
concorrer ao Senado ou
governo estadual. Mas também porque
eu acho que eu estou em um momento muito
bom na Câmara. Eu tenho cinco anos de
mandato e penso que esse seja o meu melhor
ano dos cinco. Então, eu me reanimei
por ser deputada e quero ter outro mandato
para continuar a fazer o que eu estou fazendo.
Eu não quero ser candidata a senadora,
mas também acho errado só poder
ser candidato a esse cargo com 35 anos. Se
eu pude ser candidata a prefeita, que na minha
visão tem muito mais responsabilidade
do que um senador, porque ela ordena a despesa
da vida povo, a saúde, a educação,
deveria poder concorrer a outros cargos. Então
acho que é bem
contraditória essa legislação.
Mas, enfim, esse é um dos motivos para
eu não
ser candidata ao senado.
Capital
Gaúcha - Já que a senhora
está pegando gosto pela coisa, o que tem
lhe proporcionado maior realização
dentro das atividades que vem desenvolvendo
dentro da casa?
Manuela
- Eu cheguei no Congresso
querendo participar muito da Comissão
de Educação,
que é a área onde eu atuo há 12
anos como militante política. Mas aí
eu aceitei o conselho de um grande amigo meu
que era deputado, e hoje não é mais,
o prefeito de Olinda, que me aconselhou a entrar
em outra comissão para eu aprender e
diversificar a minha atuação.
Foi então que eu parei na Comissão
de Trabalho da Câmara. Esse ano completa
três anos que eu sou vice-Presidente
da Comissão de Trabalho. E além
de eu continuar lutando pela educação,
porque eu consigo fazer isso no plenário
por ter um acúmulo grande, eu estou
me especializando no tema de trabalho. E eu
acho que tem uma infeliz coincidência
nesse ponto. O ano em que eu sou a vice-presidente
da comissão é o
ano em que a grande crise chegou ao Brasil
e que esse tema se torna mais atual ainda,
pois devemos pensar uma legislação
que consiga modernizar as relações
de trabalho para reduzir os efeitos da crise.
Então, eu tenho conseguido me especializar
nesse assunto, tenho estudado, por que é um
tema que até então eu não
tinha profundo conhecimento, exatamente por
não vir do movimento sindical, e por
isso é um tema que me desafia em vários
sentidos. A gente aprovou a lei dos estágios,
que tem relação com a educação
e com o trabalho, por causa da profissão.
Eu estou estou relatando o PAC republicano,
que é um dos principais projetos do
bloco legislativo, judiciário e executivo.
Então, eu tenho conseguido atuar em áreas
distintas, ao mesmo tempo, graças a
esse conselho que eu recebi.
Capital
Gaúcha - Quando se fala
em repensar as relações de trabalho
no momento de uma crise tão grande onde
o governo teve algumas atitudes corretas
como ceder questões tributárias,
fazendo do Brasil o único mercado
que abriu vagas de trabalho, gerando receita
e
renda na indústria automotiva, por exemplo,
não é o
momento de refazer essas idéias, de produzir
coisas diferentes, como uma reforma tributária,
há tanto tempo já discutida?
Manuela
- Eu acho que é, mas eu
acho que o Congresso Nacional não
vai aprovar uma reforma tributária
que seja profunda como a que o Brasil precisa.
Eu acho que nós
até podemos aprovar algum remendo de
tributação, de indicação,
algumas coisas que são quase pré-históricas
e que nós queríamos ter feito,
como a criação do IVA, para agregar
alguns impostos, onde uma série de impostos
se tornariam um imposto único. Mas o
que eu acho é que o Brasil precisaria fazer,
e eu não tenho esperança que
a gente faça nesse momento, é uma
reforma tributária que tributasse a
renda e não a produção.
É preciso
tributar grandes fortunas, por exemplo, no
caso das heranças, onde o sujeito não
trabalhou para ganhar aquilo. Como se faz nos
países
desenvolvidos. A Inglaterra chega a ter
taxa de imposto de renda de 40%. Mas é sobre
a renda. O sujeito não paga nem sobre
o consumo e nem sobre a produção,
porque é o que movimenta a econômia.
Com o sistema que nós temos de tributar
consumo, o que acontece: a quantidade de impostos
que o cidadão pode pagar varia muito
pouco na verdade. Tirando o imposto de renda,
que acaba fazendo isso que eu falei, eu Manuela,
que tenho um salário muito alto para
o padrão brasileiro, vou comprar os
mesmo dois quilos de arroz que qualquer pessoa
que come os mesmos dois quilos de arroz no
mês. Então eu vou pagar o mesmo
imposto que alguém que ganha um salário
mínimo e ao mesmo tempo eu vou tornar
o arroz mais caro, já que este possui
uma embalagem plástica e outros valores
referentes ao seu deslocamento e processos
de produção, fazendo com que
se consuma menos. Então, precisamos
dessa reforma tributária que onere renda,
que consiga
qualificar, que crie, por exemplo, distintas
faixas de imposto de
renda. Nós criamos uma no ano passado,
mas ainda é muito pouco.
Há muita
diferença
entre ganhar dois mil reais e quatro mil reais.
Tem muita
diferença entre ganhar quatro ou ganhar
dez e assim sucessivamente. Então, isso
a gente não vai conseguir fazer no Brasil,
inclusive pela composição do
Congresso Nacional e a defesa de interesses
que nós temos no governo. Quando a gente
debate tributar renda, nós estamos querendo
dizer que existem pessoas que ganham salários
comuns. E existem pessoas que tem enormes fortunas.
Essas que paguem a partir da renda que tem.
A liberação do IPI foi uma prova
de que é possível diminuir a
tributação e aumentar a arrecadação
sobre a produção e sobre o consumo.
Foi mostrado que é possível,
que dá certo. Mas para isso é necessária
uma reforma estruturante.
Capital
Gaúcha - Dentro dessa questão
do trabalho que é fundamental em um
país que tenta se desenvolver e que
tem tudo para isso, como é o caso do
nosso país, a Deputada chegou a apresentar
um projeto voltado para o estágio não
foi?
Manuela
- Foi. Nós conseguimos
aprovar a nova lei do estágio, que
não é trabalho. É uma
relação que tinha que ser criada
na verdade, porque quando surgiu há trinta
anos, era uma idéia de aprendizado profissional,
mas que com o tempo foi perdendo essa característica
e foi virando trabalho sem direitos. Sem vale-transporte,
sem férias, sem décimo terceiro,
sem contribuição previdenciária.
Então, a gente retomou o caráter
educativo do estágio. Ele é uma
relação com o mundo do trabalho
sim, mas ele é algo vinculado a educação,
justamente pelo que tu disse, do Brasil estar
se desenvolvendo.
Um dos desafios de um país
nesse patamar é obter mão-de-obra
qualificada. E a qualificação
de mão-de-obra tem vínculos profundos
com todo o processo educacional. Se nós
observarmos os países que mais cresceram
nesse último período e que enfrentam
razoavelmente a crise, como a Coréia
do Sul e a China, veremos que são países
que triplicaram a participação
da população jovem na educação.
Coréia do Sul integrou toda essa população
no ensino fundamental e médio. E a China
em 20 anos aumentou 20% o acesso da população
jovem ao ensino superior. Isso
tem impacto grande na econômia e a nossa
idéia foi a de garantir uma relação
tranquila, com alguns direitos, porque o estágio
acabava sendo uma forma de largar os estudos.
Tinham casos de estudantes que se matriculavam
no ensino médio para ter o atestado
e conseguir o estágio, saindo da escola
pela carga horária que era de oito horas,
que conflitava com a carga educacional, que é de
quatro horas. Então mudamos a carga
horária para seis, demos o benefício
de transporte, ou seja, ele vai usar o vale
estudantil para ir para a escola, para a universidade.
Então essa foi a nossa reformulação.
Eu costumo dizer que nós marcamos
vários "gols" ao longo do
mandato. Mas dificilmente iremos marcar outro
tão bonito como esse, de bicicleta.
Gol é gol e vale igual ao final, mas
esse penso que seja o trabalho mais completo
que nós conseguimos fazer.
Capital
Gaúcha - Mas a Deputada acha
que esses benefícios que foram assegurados
aos estudantes não podem desestimular
de certa forma os empregadores a procurarem
estagiários e passarem a contratar funcionários
efetivos, visto que o estágio acabará saindo
um pouco mais caro para as empresas?
Manuela
- A tua pergunta tem
dois pontos. Em primeiro, eu acho que nós
temos que saber aquilo que nós queremos.
Se o empresário quer um trabalhador
mais barato, ele que se organize e lute para
acabar
com a CLT. Eu vou estar no Congresso defendendo
o que diz a CLT, onde o trabalhador tem direito à férias,
décimo terceiro, constituição
previdenciária, ou seja, a direitos
mínimos
que uma sociedade que se diz avançada
pode ter. Porque o tempo em que nós
vivíamos isso era o tempo da revolução
industrial, onde se trabalhava doze horas,
onde as mulheres dormiam nas máquinas
e morriam mutiladas. Esse é um tempo
que a gente olha e pensa como sendo pré-histórico.
Quem tem essa visão e quer
retroceder
tem todo o direito de se organizar e tentar
eleger deputados com
essa visão. O Congresso representa esse
tipo de interesses.
O
interesse do trabalhador e também do
empresário. O Brasil
tem muitos empresários sérios.
E esses conseguem compreender duas coisas.
A primeira é que é interesse
deles ter mão de obra qualificada. Em
2006, quando o país crescia muito, faltava
qualificação aos profissionais.
Então, os empresários sérios,
que querem que o Brasil se desenvolva sabem
que precisam formar profissionais qualificados.
E a melhor forma de fazer isso para a sua própria
empresa é ter um estagiário qualificado.
Os grandes grupos nacionais e internacionais
fazem isso. Não é uma casualidade
que os grandes bancos ou que a Gerdau, por
exemplo, tenham grandes projetos de estágio. É por
que eles são inteligentes. É claro
que isso gera um benefício para a população,
mas o maior beneficiário é o
empresário, por que ele vai ter um bom
funcionário de administração,
ou um bom gerente, um bom jornalista, etc.
Existe uma outra questão que é a
segurança jurídica. Os empresários
não tinham segurança jurídica
nenhuma. Por que a lei é de 1977 e tinha
uma série de resoluções,
decretos de governos, de conselhos de educação,
governos estaduais. Então, no ministério
do trabalho, ninguém sabia direito o
que fazer e isso resultava em uma série
de ações no ministério
público do trabalho. Por que? Porque
eu podia alegar que se eu recebia vale transporte,
isso caracterizava vínculo empregatício,
porque o vale transporte é um benefício
do trabalhador. Não existia um ato legal
que permitisse que alguém desse um VT
para um estudante. Então,
com essa lei, os empresários ganham
segurança jurídica. Em terceiro,
do ponto de vista de cálculo, o estagiário
segue sendo muito mais barato que o trabalhador,
porque ele não tem uma contribuição
previdenciária e ele não tem
outros benefícios. Mas, eu terminaria
dizendo o seguinte: também é a
idéia da lei reduzir, ou melhor, ajustar
a oferta de estágios e de funcionários
em algumas áreas. A gente observou que
no comércio, por exemplo, algumas empresas,
lojas, que tinham sessenta estagiários
e apenas um funcionário. Só que
o estagiário também tem que perceber
que um dia ele também deixa de ser
estudante. E quando ele deixa de ser estudante,
ele não tem um posto no comércio,
por exemplo, pois a grande maioria eram ocupados
por estagiários. Era uma mão
de obra muito barata e muito rápida.
E mesmo com essas alterações
nós mantivemos o mesmo índice
de estágios ofertados, o que prova que
se de um lado a gente regulou e conseguiu tirar
o estágio desnecessário, de outro
nós ampliamos com a segurança
jurídica dada aos empresários.
Capital
Gaúcha - Por que a liberação
do uso da internet e doações
pela web para campanhas eleitorais ainda é pouco
divulgado, embora essa talvez seja uma
questão fundamental para as próximas
eleições?
Manuela
- Essa questão tem vários
pontos. Primeiro, nós temos que compreender
o que é a internet como um todo, para
fazer qualquer legislação sobre
isso. A internet é uma ferramenta nova
e distinta de jornal, rádio e televisão,
principalmente em relação as últimas
duas, a qual a internet é comparada
na atual legislação. Por que?
Primeiro porque rádio e a televisão
são uma concessão pública.
Então, a capacidade do poder público,
seja do legislativo ou do judiciário,
de pautar o rádio e a TV é maior,
porque são pagos com dinheiro público.
Quando eu apareço na televisão
e rádio, aquilo é pago com o
dinheiro do povo. Tanto que são espaços
mais democráticos, porque todos tem
acesso a esses espaços. Mas existe uma
diferença. Quando eu ligo a televisão
no horário eleitoral eu vou ver a Manuela,
independente de eu querer ou não. Na
internet isso não acontece, pois ali
nós buscamos somente a informação
que nós queremos buscar. E isso, num
momento onde vivemos uma crise de instituições
políticas é muito importante,
pois eu não posso querer cercear o direito
de alguém acessar uma informação
que ele quer acessar. Essa pessoa não
liga o computador e aparece um banner pago
meu.
Ele vai atrás para buscar informações.
Que é o que corresponde ao que tu perguntas
sobre a quantidade de informações
e a transparência. Esse é um dos
objetivos da proposta de investigação
que a gente faz sobre o uso de internet nas
campanhas. De um lado, é conseguir dar
liberdade as pessoas que manifetsam opinião
na rede, pois opinião não é campanha.
A internet é um espaço como uma
praça, onde niguém pode me impedir
de conversar contigo numa praça sobre
o Brasil, sobre Porto Aelgre, sobre o RS. Outra
coisa é a campanha irregular. As regras
da internet serão as mesmas da televisão,
do rádio e dos jornais impressos, onde
por exemplo nós temos data para começar
a campanha. O que é campanha? São
os números, é o dia de eleição, é plataforma
eleitoral. Isso caracteriza campanha no jornal
impresso, por exemplo.
Capital
Gaúcha - Mas na internet ela
não vem sendo respeitada.
Manuela
- Não vem sendo respeitada
mesmo. O problema é muito grave, pois
o poder judiciário tirou do ar os fatos
que não eram fatos de campanha do
ar. Eu tive dez perfis meus do orkut deletados
arbitrariamente, algo que eu cultivava há quatro
anos. Essa era uma ferramenta de comunicação
minha tanto quanto é o meu email, não
de campanha. Aquilo simplesmente é um
banco gigante de emails onde tu te comunica
com diversas pessoas simultaneamente. Ou seja,
faltava conhecimento ao legislador sobre isso.
Da mesma forma o twitter. Eu tenho um twitter
agora, e nele eu vou continuar fazendo a mesma
coisa no período eleitoral, dizendo "estou
em tal lugar" e só vai acessar
aquilo quem quer. Então, nós
liberamos os espaços de comunicação
e proibimos a propaganda paga, porque um dos
problemas da política brasileira é a
alta influência do poder econômico. E
a internet tem que ser blindada desde o início
dessa questão econômica, ou seja, eu
não posso fazer um banner, por que quem
tem um banner vai ser o mesmo que vai ter placa
na rua e com isso vai se agregar mais uma coisa
ao poder econômico. Mas eu posso ter o meu
twitter, o meu site, o meu blog, que são
ferramentas de comunicação de
uma nova forma de comunicação
que oferece isso, transparência e informação
para o povo.
Capital
Gaúcha - A deputada foi
uma das que
mais lutou para trazer a Copa do Mundo de
2014 a Porto Alegre. Nesse momento em que tentamos
encabeçar
uma luta para trazer uma das grandes seleções
para jogar na capital, pois acreditamos que
SP, RJ e BH serão três das principais
praças para a Copa do Mundo e gostaríamos
que Porto Alegre fosse a quarta sede principal,
pela sua tradição futebolística
e também por que aqui os jogos serão
feitos em estádios privados, sem dinheiro
público, teria alguma sugestão
a dar para essa campanha?
Manuela
- A Copa é um evento que
traz muitos benefícios para o povo
e por isso lutamos muito e
transformamos
ela em bandeira principal da minha campanha
para prefeita. Eu lembro que na minha campanha
eu ouvia que a gente ia prometer gol, porque
era um absurdo falar em Copa. E hoje eu fico
feliz que todos tenham abraçado essa
bandeira. Isso é uma prova de que a
eleição sempre traz avanços.
Muitos se perguntam mas para que uma disputa
eleitoral? Esta é uma das razões,
pois nós
perdemos a eleição mas foi uma
coisa que ficou e ganhou a mente dos outros
políticos. Acho que é assim que
nós vamos construindo a democracia.
O principal para abrigar uma grande seleção,
são as cidades que vão receber
seleções. Então, vocês
podem construir essa bandeira junto com as
cidades que estão postulando o recebimento
de seleções para treinar e se
hospedar, como é o caso de Canoas, Novo
Hamburgo, Bento, Flores da Cunha, Gramado,
que tem tentado avançar nesse processo.
Esse é um elemento a mais do que somente
a cidade em si. Eu acredito que tenha grandes
chances, porque na realidade RJ e SP não
irão escolher as suas chaves por que
elas farão os jogos de abertura e a
final da Copa. E a nossa disputa então
passa a ser com BH. Nós temos um grande
atrativo para seleções européias
que é o clima, pois imagine o jogador
italiano desembarcando em Manaus. É quase
como desembarcar na Bolívia para os
jogadores do Grêmio, por exemplo.