Entrevistas - Madruga Duarte

Por Marco Poli

Sempre que vejo um recém formado saindo de uma de nossas faculdades de comunicação, se dizendo jornalista, lembro daqueles que construíram suas carreiras com muito suor, ao longo de uma vida toda, vencendo um gigantesco número de desafios. Madruga Duarte é um desses casos. Jornalista da melhor cepa, passou por todos os meandros da comunicação e por alguns dos principais pólos desta nossa América do Sul. Pra vocês terem idéia, trata-se de um gaúcho que já foi Secretário de Estado, em São Paulo. E como se não bastasse ainda dirigiu algumas das maiores agências de propaganda deste país. Não vou me alongar, porque a entrevista que fiz com ele é muito mais interessante que qualquer coisa que eu possa dizer. Com vocês, um jornalista de verdade.

CapitalGaúcha - Você construiu uma das mais respeitadas carreiras no mercado de comunicação do sul do país. Por favor conte para as novas gerações como começou, por onde passou e o que você anda fazendo agora.

Madruga Duarte - Eu sou da geracão da primeira metade do século passado. Iniciei-me profissionalmente em jornalismo no velho Diário de Noticias de Porto Alegre, então no Largo do Medeiros. Era 1954. Houve o incêndio, fomos para a rua Siqueira Campos - defronte a então Central de Polícia. Eu era revisor extra, isto é, ía ao jornal e rezava para um revisor faltar. Depois passei a escrever a página dominical de tradição, elo que ligava o jornal com o então incipiente movimento tradicionalismo.
Fiz reportagem geral, fui colega do Fernando Ernesto e do Faveco, filhos do genial major Ernesto Correa.
Em 56, iniciei, com o meu querido e saudoso Barbosa Lessa, o chamado grupo folclórico brasileiro. Encenamos, em mais de 50 cidades do RS a peça Não Te Assusta, Zacarias, onde - pela primeira vez - o gaúcho era mostrado num palco.
Fomos em 56 para São Paulo. teatro, tv, shows. primeiro com a mesma peça Não Te Assusta, Zacarias e depois com outras realizações. Fui diretor da SBE, a pioneira empresa do Abelardo Figueiredo que montava programas de televisão para a TV Tupi, uma espécie de globo naquele momento.
Fui para os Diários e Emissoras Associados de São Paulo, onde dirigi a TV Cultura (primeiro diretor), a TV Paraná de Curitiba e fui assistente do então poderoso presidente associado Edmundo Monteiro.
Passei para a Alcântara Machado, onde dirigi 102 feiras, tipo Fenit, UD, Salão do Automóvel.
Comprei uma produtora de filmes e produzi alguns longas e muitos filmes de propaganda.
Fui Secretário de Estado de Turismo, Desporto e Cultura, nas gestões do Adhemar de Barros e Laudo Natel.
Fui diretor geral da Standard Propaganda São Paulo, naquele momento a maior agencia brasileira de publicidade.
Fui gerente geral de marketing do Banorte, Banco Nacional do Norte e do Banco de Tokyo. e dirigi a TV Rio, canal 13, do Rio de Janeiro.
Voltei ao RS e tornei-me integrante da RBS, onde cheguei a membro do Comité Executivo, a mais alta instância de comando do grupo. dirigi, desde Buenos Aires, a movimentação da RBS rumo ao Mercosul.
Aposentei-me e tornei-me consultor de jornais. Tenho clientes em Montevideo, Buenos Aires, Assunción, Lisboa e em alguns locais do Brasil.

CapitalGaúcha - A maior parte dos jovens profissionais sonham em sair de Porto Alegre tendo como o destino único São Paulo. Tem mercado pra toda essa gente lá? E os mercados emergentes não são uma opção mais inteligente?

Madruga Duarte - Creio que pessoas de real talento têm lugar para crescer profissionalmente onde estiverem. A vantagem, para iniciar ou desenvolver uma carreira, em São Paulo é que é a única cidade infinita do Brasil. Quando se fecha uma porta, restam muitas outras. E isso faz a diferença. Por outro lado, a competição é muito mais agressiva, expurgando aqueles que não são realmente talentosos.

CapitalGaúcha - E a internet, essa "esfinge" do mercado da comunicação. Você conhece algum caso de quem já tenha decifrado seu mistério e transformado isso em grandes negócios? Por quê o anunciante ainda está distante?

Madruga Duarte - A internet foi até agora, salvo poucas e honrosas exceções, mal usada. Ela foi super valorizada em desacordo com a realidade. Porém é algo que veio para ficar.
Conheço muitos exemplos de gente, de empresas, que estão tirando proveito dela. Seja proveito de imagem para os seus negócios, seja proveito de dinheiro, para o seu faturamento. Embora numerosos, eles são poucos diante dessa massa inerte que só quer ganhar dinheiro fácil. Como qualquer empreitada, a internet pressupõe talento, talento, trabalho e mais trabalho.
Há lugar nela, porém não é algo que caia do céu. É preciso lutar para chegar nele.

CapitalGaúcha - Por último, o que você recomenda aos estudantes e futuros profissionais do mercado e, principalmente, o quê você diria pra todos evitarem de fazer?

Madruga Duarte - Não tenho propriamente uma recomendação. Tenho apenas algumas indicações. Em primeiro lugar, faça a coisa passo a passo. Faça tudo muito bem, como a filosofia de Bali - como eu creio na reencarnação, quando voltar não quero ter de fazer tudo de novo. Quero que as minhas ações, pela qualidade, perdurem. E, acima de tudo, procure fazer apenas uma coisa - e muito, porém muito, bem feita. Não seja como aqueles médicos que operam das 7 às 9, vão ao hospital das 10 às 12. Vão a faculdade, das 14 às 16 e vão ao consultório das 16 às 19. Faça uma única coisa, bem feita - não várias ao mesmo tempo, porque infelizmente a espécie humana não tem capacidade de servir a dois senhores simultaneamente (e bem).

 

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