Entrevista - Luiz Pierry - Coordenador Executivo do PGQP
O governo do RS investe em áreas que há muito tempo vinham ficando de lado, obtendo o "déficit zero", na atual gestão. Esse resultado, entre outras ações, foi construído graças à parceria com o Programa Gaúcho da Qualidade e Produtividade - PGQP. A novidade trouxe resultados em organizações públicas e privadas. Com exclusividade ao leitores do Capital Gaúcha, Luiz Pierry, Coordenador Executivo do PGQP, apresenta esses conceitos de gestão, aponta as tendências e analisa a crise mundial e como o RS conseguiu reorganizar suas contas.

Capital Gaúcha - Esse ano, o tema do Congresso Internacional da Gestão foi "Crises: Gestão da Mudança e Oportunidades". Quais foram as principais propostas e discussões levantadas?

Luiz Pierry - Foi uma oportunidade ímpar para aprofundar o debate sobre os verdadeiros impactos causados pela crise atual na economia mundial e, sobretudo, avaliar estes efeitos nas organizações e como elas estão se protegendo ou se preparando para minimizar os fatores e circunstâncias das quais todos somos vítimas o tempo todo, pois vivemos em uma sucessão de crises. Todas as conclusões foram unânimes no sentido de apontar que o que nos resta é investir em qualificação da gestão, para que possamos ficar mais fortes e, assim, preparados para enfrentar este tipo de situação. Os diversos palestrantes se preocuparam em apontar as oportunidades de mudanças que as crises propiciam, procurando mostrar algumas lacunas que se apresentam no mercado, especialmente setoriais, e como se utilizar dos novos conceitos desenvolvidos, tais como sustentabilidade e inovação, para o aprimoramento gerencial e aproveitamento destas oportunidades. Outro ponto a destacar é que as atenções não ficaram restritas apenas à análise desta crise econômica, e sim das crises de um modo geral, as que já passaram e as que ainda estão por vir. Através das experiências e medidas já adotadas e que foram enfocadas o tempo todo, está a necessidade de atualização e definição do foco estratégico de cada negócio, com a devida priorização nos processos daí decorrentes e os cuidados que se precisa ter nas rotinas do dia a dia naquelas que são as ações fundamentais para o atingimento dos principais objetivos. Mais do que nunca, serve a máxima de pensar globalmente, porém, agir localmente.

Capital Gaúcha - Muitas empresas vem obtendo crescimento e valorização no mercado mesmo diante de um cenário de crise mundial. A que fatores atribuir essa condição?

Luiz Pierry - Nem todos os setores foram atingidos na crise de maneira igual. Uns mais e outros nem tanto. Assim, o que se percebe é que os mais atingidos foram obrigados a serem mais radicais nas medidas de reestruturação e contenção de despesas, até por uma questão de sobrevivência no curto prazo. Já os que não foram tão atingidos, se é que se pode dizer isto, uma vez que devido à amplitude e gravidade da crise não se pode dizer que alguém possa passar ileso a ela assim como a escassez de crédito e diminuição do mercado global, com todos os efeitos de um mundo que cada vez mais se apresenta sistêmico. Nestes últimos, o que se percebe é uma atitude de busca de oportunidades para fazer investimentos e inovar, até mesmo com uma estratégia mais agressiva de busca de crescimento, se deve a condição de estas organizações olharem para a crise de uma maneira mais otimista e encará-la como um cenário mais de oportunidades e menos de incertezas. Pode-se dizer que quando se tem uma boa gestão, se está melhor preparado para uma crise e mais facilmente nos aproximamos da identificação de qual a
melhor atitude em relação à crise. Já diria um conhecido publicitário brasileiro: "na crise, existem as pessoas que choram e as pessoas que vendem lenços".

Capital Gaúcha - Até que ponto a busca por uma gestão baseada na inovação pode fazer a diferença dentro de um mercado cada vez mais competitivo?

Luiz Pierry - A inovação é, cada vez mais, uma exigência que se impõe para todos. Precisamos estabilizar processos, buscar melhorias para fazer mais com menos e, certamente, as oportunidades existentes no ambiente competitivo serão aproveitadas pelos que se habilitarem pela inovação. A inovação não está apenas em criar algo novo e colocá-lo no mercado. Trata-se de uma idéia nova que, implementada, gera um resultado de interesse das chamadas partes interessadas no êxito do negócio. É algo como fazer certo a coisa certa, porém de maneira diferente. Hoje em dia, em um cenário de forte concorrência onde as ações estão cada vez mais padronizadas e parecidas, a inovação pode ser a chave para se destacar e ganhar o novo que poderia antes estar distante e inacessível. A inovação, ao ser implantada na gestão de uma organização pública ou privada, precisa estar alinhada ao plano estratégico, pois pouco acrescenta uma prática inovadora que não trabalhe a favor dos objetivos estratégicos da organização. A inovação na estratégia é prática que deve ser lapidada, onde precisaremos aprender com este processo, cujo objetivo é construir um ambiente na organização que favoreça a mudança e a criatividade, sempre olhando as oportunidades. Quanto mais estes conceitos estiverem incorporados no comportamento das pessoas, maior as possibilidades de resultados a partir das novas idéias.

Capital Gaúcha - A governadora Yeda Crusius sancionou no dia 13 de julho a nova Lei de Inovação e Tecnologia do RS, que será discutida pela Secretaria Executiva da Agenda 2020 em uma série de reuniões. Qual a importância dessa lei para a modernização do setor? Que órgãos públicos e privados, além do PGQP, estarão envolvidos na discussão e quais temas serão abordados?

Luiz Pierry - Aqui temos uma oportunidade âncora para a modernização do Estado como um todo e que foi reconhecida em lei. O Estado, enquanto ente público, tomando a iniciativa que lhe cabe de identificar a necessidade e de fomentar o debate, valorizando este momento histórico, com a criação das condições e instrumentos necessários para criação deste ambiente que possibilitará os incentivos para o fomento de inúmeras iniciativas com este objetivo. O governo também tem muitas oportunidades de se reinventar e fazer a sua parte, dando o exemplo para que isto ocorra com mais velocidade. Na agenda 2020 - o Rio Grande que Queremos - estamos participando e levando a nossa contribuição na identificação de projetos e ações que podem ser conduzidas coletivamente, buscando agilizar este processo nas organizações de um modo geral.

Capital Gaúcha - Que outros eventos relacionados à gestão o órgão pretende realizar ainda esse ano?

Luiz Pierry - Acabamos de passar aquele que julgamos ser o nosso grande momento no ano, realizando o maior evento do mundo para tratar da gestão de qualidade, considerado pelo número de participantes. Entretanto, isto não significa que fazemos o movimento da qualidade acontecer só com estes eventos. O PGQP está sempre realizando eventos e promovendo acontecimentos, através da sua rede de comitês setoriais e regionais, como forma de disponibilizar o conhecimento da qualidade e contribuir na gestão das organizações gaúchas. Realizamos vários projetos na área pública, visando a modernização da gestão pública. Somos um corpo vivo e que se alimenta durante todo o ano de um conjunto de iniciativas que, juntas, dão sentido na construção da causa da qualidade e da busca da excelência em gestão, em parceria com outras entidades e utilizando muito voluntariado para isto acontecer.

Capital Gaúcha - No surgimento do PGQP  falava-se em "gestão de qualidade". Hoje, fala-se em "qualidade de gestão". O futuro passa, necessariamente, pela inovação? Como esse fator será trabalhado e incentivado daqui para frente?

Luiz Pierry - Toda a preocupação inicial era com o aprendizado dos conceitos, técnicas e implantação de ferramentas gerenciais para a estruturação da gestão. Isto foi importante para sensibilizar, mobilizar e estruturar os programas. Na medida em que vamos avançando, também vamos enxergando mais e ficando mais exigentes. A nova etapa, após a consolidação do movimento, foi ampliar o envolvimento das lideranças e buscar maior qualidade da gestão, através de inúmeras melhorias que foram sendo identificadas durante a caminhada e o conhecimento que foi sendo acumulado. Neste contexto e na sequência deste processo, a inovação aparece no momento em que trabalhar somente a questão da qualidade já não é mais suficiente. As exigências de mercado e dos consumidores, somado às tecnologias disponíveis, criam novas condições de negócios, o que poderíamos dizer, novos desafios estão colocados.

Capital Gaúcha - A administração pública do RS conseguiu se reestruturar e chegar ao chamado "déficit zero". Qual a participação do PGQP na qualificação em conjunto com a gestão estadual, já que o estado vem sofrendo, há anos, para reajustar suas contas?

Luiz Pierry - Os governantes de um modo geral, no Brasil, vêm cada vez mais se conscientizando da necessidade da modernização da gestão pública. O governo atual assumiu com a proposta de um novo jeito de governar e encontrou na participação e parceria com o PGQP, a possibilidade de uma contribuição efetiva para ajudar a realizar muitos dos seus objetivos. Quem fez o déficit zero acontecer foram os servidores públicos, que acreditaram que a nova orientação era para valer e apostaram na oportunidade de fazer mudanças. Nós, do PGQP, podemos dizer que fomos o veículo para construir a caminhada. Trabalhamos juntos em frentes de aumento de arrecadação, diminuição de despesas, reestruturação de processos em vários órgãos, na montagem dos programas estruturantes e na construção de um portal de gestão, que ao nosso ver é um instrumento fundamental para agilizar a gestão e seus resultados, bem como importante instrumento de controle social e transparência na gestão da coisa pública. Com o conhecimento, as técnicas e ferramentas, fomos úteis no processo de facilitação na busca de realizar este objetivo. O resultado do equilíbrio fiscal e fim do déficit público com a consequente recuperação da nossa capacidade de investimentos, sem dúvida, foi um feito histórico e de relevante importância para o Estado. É uma demonstração inequívoca de que quando se quer e, com vontade política, com servidores capacitados e querendo fazer, é possível promover mudanças e construir soluções novas e definitivas.

Capital Gaúcha - Das 90 organizações premiadas na 14ª edição do Prêmio Qualidade RS, 60 são da área de serviços e 46 são consideradas pequenas empresas. Além disso, várias entidades de classe e de representação setorial foram premiadas. Quais as conclusões podemos tirar a partir desses números?

Luiz Pierry - Este crescimento não nos surpreende, pois reforça o que ao longo destes 16 anos de atividades estamos sinalizando. Este movimento pela qualidade que se iniciou com experiências e resultados na indústria, aos poucos, foi tomando corpo com a sua divulgação e permitindo adaptações para uso em outras áreas atingindo, até mesmo, as pequenas empresas. Como nosso objetivo maior é a construção de um estado de qualidade, competente e competitivo, faz muito sentido que isto também seja forte no
interior e nos diversos segmentos da nossa economia. Não foi outra a nossa estratégia, quando nos decidimos pela construção de uma rede de comitês setoriais e regionais, a qual com o passar do tempo e ganhos acumulados, tem permitido esta multiplicação.
Os resultados alcançados no setor público também têm sido alavancadores do crescimento na área de serviços e quando isto atinge as entidades de classe que passam a conviver com as exigências da gestão de qualidade, é uma demonstração pura de que não existem restrições para qualquer organização trabalhar desta forma. Quando chegamos à área da saúde, dos transportes de passageiros, nas escolas com a educação, na área pública, aí sim acreditamos que o cidadão começa a perceber o valor da qualidade para a sua vida. Portanto, estamos sim diante da possibilidade do estabelecimento de novas regras de convivência e de compromissos que, assumidos por todos, poderão nos levar ao desenvolvimento de que precisamos e juntos construirmos a
prosperidade que queremos, o que certamente se refletirá em melhor qualidade de vida para todos.