Entrevistas - Alexandre Garcia

Ele chegou na Capital Federal há um quarto de século e de lá não saiu mais. De porta-voz à correspondente de guerra condecorado pela Rainha da Inglaterra, "Sir" Alexandre Garcia é o jornalista com a bola mais cheia em Brasília. Em conversa com nossos leitores, esse gaúcho de Cachoeira que tem mais de 50 anos de comunicação, dá uma verdadeira aula de jornalismo. Com seu modo elegante e humilde, demonstra algumas aberrações cometidas pela mídia no dia-a-dia, sem a pretensão de ser professoral, mas para deixar claro que erros considerados comuns e até aceitos, não podem passar despercebidos. E olha que o cara tem currículo de sobra pra isso. Enfim, leiam e se divirtam (que ainda por cima o cara escreve muito bem) e, se puderem aprendam um pouquinho.


PontocomPress - Saíste de Cachoeira (terra de bons jornalistas), te formaste na Capital Gaúcha, mas foi na Capital da República que teu nome ganhou fama. Quais os órgãos de imprensa por que passaste até chegar ao cargo de Porta-Voz da presidência, no governo Figueiredo? E quais os bons e divertidos momentos daquele período?

Alexandre - Comecei no Jornal do Brasil em Porto Alegre, em 1971, ainda no último ano da FAMECOS. Lembro que ganhava dois salários-mínimos como estagiário e o pessoal da justiça social me criticava por trabalhar por tão pouco. Eu respondia que estava aprendendo e eles ainda me pagavam. Até hoje é assim. Eu me divirto e eles ainda me pagam por isso. Na verdade, comecei foi mesmo em Cachoeira, na Rádio Cachoeira, quando eu tinha sete anos. Meu pai sempre foi de rádio e me chamava quando havia papel infantil nas rádio-novelas. Naquele tempo não havia gravador. Era tudo ao vivo. Então tenho mais de meio século de microfone, e ao vivo. Paguei minha pensão em Porto Alegre sendo locutor da Rádio Difusora.
Voltando ao JB, de Porto Alegre me mandaram para o Prata, em 73. Cobria Uruguai e Argentina. Assim foi até 1976, quando, seqüestrado pelos Montoneros e ameaçado de morte pela triple A do Lopez Rega, o JB me transferiu para Brasília. Na média, saí bem, perseguido pelos radicais dos dois extremos. Cheguei a Brasília em março de '76 e daqui não saio mais. A sensação, aqui, é de estar sempre em férias. Explico: aqui é sempre verão. E, na minha cabeça de cachoeirense, para mim verão é sinônimo de férias. E verão com temperatura média de 25 graus. Quem quer outra vida? Figueiredo me convidou para ser subsecretário de imprensa nacional. Tirei uma licença no JB e fiquei no palácio por 18 meses. O suficiente para aprender como é o outro lado. Hoje é fácil de deduzir as notícias do governo, porque a engrenagem de poder não muda nunca. Sabendo 10% de um fato, dá para saber como vai se encaminhar. Até as palavras que o presidente vai dizer, diante de determinadas circunstâncias, acabam previsíveis. Tudo muda para que nada mude


PontocomPress -
Quem te vê na Globo hoje pode pensar num profissional mais sossegado, pela aparente tranqüilidade que passas ao espectador. Mas nem sempre foi assim. Conta como é a experiência de vivenciar uma guerra, ou mesmo de tirar uma revista por semana.

Alexandre - Pois é. Cobri a guerra no Líbano, no período mais difícil, em 1982, pela Manchete. Um franco atirador descarregou um AK-47 em mim e errou todas. Estava mais nervoso do que eu. E eu enchendo a mãe dele de desaforo. Ainda bem que ele não entendia Português. E descobri porque se mata em guerras. Eu queria ter um fuzil para revidar e não molhei as calças. Estava era com muita raiva. Cobri a guerra em Angola e um maluco de um piloto mercenário escocês me entregou o comando de um bimotor, porque não consegui ficar acordado. Ensinou-me como era e eu fiquei feliz da vida com a aventura. Só que, quando ele acordou, descobriu que estávamos sobre as baterias cubanas e tivemos que mergulhar e ficar espantando macaco para fugir dos radares. A cobertura da guerra das Malvinas me valeu uma condecoração da Rainha, a mesma que ela deu para os Beatles: a Ordem do Império Britânico. Se vocês quiserem, podem me chamar de Sir. Quanto à tranqüilidade que vocês mencionam, ela esconde o fato de que além da Globo(Jornal Nacional, Globo Repórter, Bom Dia Brasil, GloboNews e o noticiário local da hora do almoço) ainda faço artigos semanais para 43 jornais, tenho comentário diário em 80 emissoras de rádio, fora à revista de bordo da TAM, a Novità, de Novo Hamburgo e as palestras que faço pelo Brasil afora. Mas nada que possa tirar a tranqüilidade.


PontocomPress -
Como repórter político número 1 deste país, fica difícil pra ti aceitar convites para comandar campanhas de candidatos. Mas ao ver a grana preta que rola na mão de muito colega que tem menos conhecimento do jogo político, ainda mais em ano eleitoral, não dá vontade de pedir licença pra Globo e ajeitar a poupança?

Alexandre - Bom, em primeiro lugar, tá cheio de repórter número um. Não estou preocupado quanto a essa classificação. Só sou número um na credencial do Palácio do Planalto, por antigüidade. E quase não freqüento o Palácio. Quanto a aceitar convites para campanhas, nunca aceitei porque nunca fui convidado. E se fosse, não aceitaria. Como todos sabem que eu não aceitaria, nem perdem tempo em me convidar. Não é do meu ramo. Quem precisa ganhar a tal grana que se candidate.


PontocomPress -
Com partidos ricos como o PT, o PFL e um candidato oficial, dá pra acreditar em alguma outra força política para o pleito deste ano?

Alexandre - Como eleitor, bem que eu continuo esperando algum outro candidato.


PontocomPress -
Embora muita gente não saiba, um repórter na tua posição é obrigado a manter uma postura ética mais ilibada que a "mulher de Cezar". Cite alguns casos de assédio, ou tentativa de cooptação por parte de poderosos -tipo presentes ou tentativas de contribuições. E por quê negar se vivemos em um país onde isso é aceito quase como "normal"?

Alexandre - Estou a 26 anos em Brasília e o segredo é manter uma distância sanitária do poder. Relações, sim, mas profissionais. Respeito mútuo. Mas nada de freqüentar as mesmas festinhas, as mesmas casas. Intimidades geram compromissos. Nada de pedir ou aceitar favores. Nesses 26 anos, só em três ocasiões apareceram políticos que não me conheciam o suficiente para fazer ofertas. O Deputado Gustavo de Faria, depois cassado, me mandou um relógio de ouro porque apareceu na minha crônica no Fantástico. Devolvi pelo portador. Depois o Delfim Netto me criticou por isso, lembrando que o portador deve ter ficado com o relógio e o deputado pensa que aceitei.
O outro foi o tesoureiro de Maluf, Calim Eid, que, a pretexto de não poder me oferecer um jantar em Paris, para onde eu estava indo em férias, estendeu-me um maço de notas de 100 dólares. E ficou com a mão estendida enquanto eu me retirava. Minutos depois, o Maluf me ligou para dizer que não tinha nada a ver com o mal-entendido... Quem aceita presentes, fica com o rabo preso o resto da vida. E perde o respeito por si próprio.

PontocomPress - Ainda há espaço para idealismo dentro do jornalismo? Se a resposta for positiva, tente explicar como manter a própria identidade e coerência dentro de um grande veículo de comunicação de massas, pois isso parece ter sido a maior dificuldade de compreensão entre os colegas e estudantes.

Alexandre - Como se há espaço para idealismo? Jornalismo é só idealismo. Sem ele, procure-se outra profissão. Quanto à identidade e coerência, num grande veículo como a Globo, jornalistas discutem os fatos, jornalistas preparam a pauta, jornalistas executam a pauta, jornalistas editam as reportagens e jornalistas apresentam os telejornais. Devem estar muito realizados por isso. Uma única vez o Doutor Roberto Marinho deu palpite no meu trabalho. Perguntou se ninguém se queixava da minha crônica no Fantástico. Respondi que se alguém se queixasse, ele seria o primeiro a saber, e eu, o segundo. O resto é lenda.


PontocomPress -
Pra encerrar, o quê as novas gerações, os futuros profissionais de comunicação "não" devem fazer e como podem enriquecer seus currículos e dignificar a profissão?

Não consigo deixar de recomendar que se alfabetizem em Português. Hoje, usa-se um patuá. Uma novilíngua. Muita gente ficaria muda se fosse proibida de proferir "colocar" e "através". Até galinha está colocando ovo. E as autoridades falam através do porta-voz. Não se fala mais em "crime", mas em "criminalidade". Ninguém mais vê, mas "visualiza". A aparência virou "visual" - o odor seria o "nasal"? Sem existir inicial de semana, inventou-se o final de semana. E a ignorância impera. Ontem, ouvi na TV uma repórter contar que o Esquivel, prêmio Nobel argentino, conheceu em Porto Alegre o chimarrão. E a peste do Inglês, que gerou os xópingue, o autidór, o xou, o búqui e outras asneiras. Um conhecido apresentador cometeu ontem uma "conclusão final". É dose! A toda hora estão "encarando de frente". Fuzil virou arma pesada e o seqüestrador chileno Mauricio Hernandez Norambuena virou Mauricio Norambuena. Então vamos chamar o antigo ditador de Augusto Ugarte e o mais antigo ditador de Fidel Ruiz, não é mesmo? Nós somos a profissão que mais pode expor a ignorância e a falta de informação. Como trabalhamos com a palavra e a informação, não podemos cometer esse tipo de erro. Definitivamente, o Rio Paraguai não passa por Quaraí, ainda que isso contrarie um repórter de TV. Tampouco carente é pobre. Em geral é filho de rico. E um último conselho: esqueça a sua verdade para encontrar a verdade. Você não é o dono dela. Não é autoridade. Não é juiz. É um simples escravo da verdade, a serviço de sua audiência.

 

 

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