ENTREVISTA
COM FLÁVIA MORAES
CapitalGaúcha
- Como vocês saiu da Capital Gaúcha
já faz muito, melhor iniciar
contando onde nasceu, morou, estudou,
trabalhou, em quem se inspirou, onde
anda agora, principais trabalhos, enfim,
essas coisas que todos querem saber.
Flávia Moraes
- Sou porto-alegrense, colorada, separatista
e bairrista. Estudei nos piores colégios
da cidade... Só faltou o São
Judas Tadeu. Meu primeiro contato
com a produção cinematográfica
foi através da animação
e cheguei nela porque gostava de desenhar.
Aos 15 anos, fui lançada pelo
Edgar Vasquez no "Quadrão"
um suplemento semanal de quadrinhos,
do jornal Folha da Manhã,
que abria espaço para o talento
local. Da animação, passei
à produção, e meu
primeiro emprego sério foi na
filial gaúcha da Lynxfilm,
onde aprendi a dirigir kombis, montar
câmeras, operar a moviola. Foi
lá que eu tive a oportunidade
de ver trabalhar grandes diretores e
fotógrafos - talentos importados
pelos Studios VeraCruz
no auge da industria cinematográfica
paulista (anos 40/50) - e que, nesta
época (fim dos anos 70) já
estavam em final de carreira, sobrevivendo
graças ao cinema publicitário.
Durante esse período, me dei
conta de que, se quisesse mesmo ser
uma cineasta, o único caminho
que se apresentava era a propaganda.
A indústria cinematográfica
no Brasil tinha nome e sobrenome, e
se você não fizesse parte
do clã que manipulava a Embrafilme,
não chegaria muito longe. Além
do mais, a propaganda me possibilitava
estar no set toda a semana
e eu sempre fui uma workaholic.
Trabalhando na Lynx, juntei dinheiro
e fui estudar em Londres, na London
International Film School.
Quando voltei, comecei a dirigir comerciais,
trabalhei em agências e casei
com Guto Pereira -
um grande ator gaúcho. Com ele
e mais um grupo de loucos talentosos,
produzi "Love Love
Love" um dos
maiores êxitos da estória
do teatro gaúcho. Dois anos depois,
com o Hélio Alvarez,
um casting gigantesco e a ajuda da cidade
inteira, eu fiz o "Beijo
Ardente". Nas asas
desse vampiro, viajei para São
Paulo e Rio, onde vencemos alguns festivais
e de onde nunca mais voltei para Porto
Alegre.
Hoje em dia, sou diretora da FilmPlanet
Group, que opera em São
Paulo, Los Angeles, Buenos Aires e Santiago.
Tenho no currículo uma lista
de quase três mil comerciais,
filmados em pelo menos quatro idiomas
e rodados em diversos países
do planeta. Filmei para praticamente
todos os anunciantes do mundo ocidental
e hoje conto com uma carteira respeitável
de clientes importantes. Recebi Leões
em Cannes, Clios
em Nova York e, por três vezes,
ganhei o Premio Caboré
como profissional de produção,
além do Grande Prêmio do
Festival de Nova York,
entre outros. Dirigi uma trilogia de
curtas metragens com contos de Luis
Fernando Verissimo, shows,
vídeo clips e DVD's. Mais recentemente,
em fase budista, produzi um documentário
sobre as crianças que vivem no
templo de Três Coroas e lancei
um DVD com ensinamentos de Sua Santidade
o XV Dalai Lama no Brasil. UFA!
Dos últimos comercias que filmei,
talvez as pessoas lembrem... aquele
da prisão para o Master
Card, em que o preso pula o
muro para buscar a bola...e aquele da
Peugeot (filmado em
Gramado) onde o noivo espanca os amigos
que sujaram o seu carro na frente da
igreja.
CapitalGaúcha
- Porque cinema, publicidade e televisão
formam uma união tão estável
na tua carrreira, enquanto tem tanta
gente que insiste em que arte é
arte, propaganda é propaganda,
cinema é cinema e TV é
TV?

• Flávia (ao centro),
nos estúdios da Fox, em Los
Angeles |
Flávia Moraes
- A diferença entre propaganda,
cinema e TV não é tão
grande como certos profissionais querem
fazer parecer crer. Essa "separação"
demonstra um certo preconceito, mas
principalmente segmenta e protege os
interesses de mercados que estão
monopolizados. Obviamente que estamos
falando de públicos diferentes
e, a partir disso, o realizador precisa
necessariamente adaptar o ritmo da peça
para cada veículo. O que muda
é basicamente o timing.
Em minha opinião o bom realizador
deveria transitar entre diferentes formatos
com desenvoltura. Algo assim como um
cirurgião plástico que,
antes de mais nada, deve ser um bom
médico. Acredito também
que a separação ocorre
porque a maioria dos profissionais no
Brasil aprende "fazendo" e
nem todos se sentem a vontade para "pular
o muro". De qualquer forma, muito
me diverte o fato de que o novo cinema
nacional, o inovador e que tem reconhecimento
internacional, é justamente o
cinema feito por diretores oriundos
da publicidade, só para citar
Central do Brasil,
e Cidade de Deus.
Quanto à discussão arte
versus cinema versus propaganda, prefiro
nem entrar nessa viajem, acho que esse
papo só cabe numa mesa de boteco
e depois de algumas cervejas. Como não
bebo, não tenho paciência
e nem a menor dúvida de que tudo
não passa de um grande negócio.
O que muda é só a embalagem.
CapitalGaúcha
- Sempre foste uma criadora ousada,
a ponto de realizar um video de longa-metragem
em Porto Alegre -Beijo Ardente- quando
nem se sonhava com esse tipo de coisa.
Talvez até por isso sempre foi
vista com reverencial respeito pelo
mercado e até pelos "formadores
de opinião". A pasteurização
dos cursos de comunicação
entrega hoje tudo "prontinho".
De que maneira a nova geração
pode casar ousadia e capacidade de trabalho
dentro dessa realidade de mercado?
Flávia Moraes
- Acredito que o que realmente faz a
diferença nessa profissão
é o talento. Ninguém te
ensina como "olhar". Cursos
e até mesmo a formação
acadêmica só agregam as
ferramentas necessárias para
que o realizador trabalhe de forma mais
eficiente. No entanto, algo muito importante
e que você aprende na escola ou
fazendo, é como comunicar o que
você está imaginando, aquilo
que está dentro da sua cabeça.
Na verdade, o diretor não faz
nada: não atua, não ilumina,
não desenha o cenário,
não escreve o roteiro, mas é
ele que faz com que todos os que fazem
tenham a mesma visão. Quanto
à realidade de mercado... Bem
este é um assunto e tanto. Acredito
que dentro de muito poucos anos o mercado
estará totalmente mudado e tanto
a publicidade como a televisão
e o cinema não serão como
conhecemos hoje.
CapitalGaúcha - Existe algum
filme, curto, longa, comercial ou ficção
que ainda estejas perseguindo?
Flávia Moraes - Muitos. Depois
de anos escrava de minha própria
estrutura, onde terminei quase totalmente
dedicada à propaganda, finalmente
formei uma equipe de diretores que já
estão dividindo o trabalho comigo.
Dessa forma estou criando o espaço
necessário para os projetos pessoais.
O primeiro já
está em produção.
Nele participo como diretora convidada
da Universal. Não
é exatamente um longa-metragem
"autoral", mas acredito que
pode ser uma boa surpresa. Trata-se
do filme de estréia de Sandy
& Jr. no cinema... Uma
ficção científica
POP (risos).
CapitalGaúcha - Qual
a diferença entre Porto Alegre,
São Paulo, Buenos Aires e Hollywood
para o profissional de comunicação,
fora a quantidade de "zeros"
na caderneta de poupança?
Flávia Moraes - Basicamente
a cultura local. O humor que faz rir
em Hollywood faz chorar em Buenos Aires...
E vice-versa. Mas existem áreas
comuns e quando você as encontra,
então sim, o trabalho tem qualidade
internacional e os zeros se multiplicam.
• cidade cenográfica
em que Flávia filmou seu
mais recente trabalho |
CapitalGaúcha - Você
consegue localizar um erro freqüente
na propaganda atual? Ou algum acerto?
Flávia Moraes - O maior erro
da propaganda atual é a pasteurização
originada pelo processo globalizado.
Algumas marcas filmam internacionalmente
segundo um manual. Dessa forma, sem
dúvida, a comunicação
termina unificada e organizada, mas
também totalmente medíocre.
Os acertos são sempre batalhas
isoladas de alguns corajosos que decidem
correr riscos.
CapitalGaúcha - Por
fim, qual o conselho para as novas gerações
de profissionais de comunicação,
ou ainda melhor, qual o caminho que
eles devem evitar?
Flávia Moraes - Não acredito
que exista uma fórmula. Talvez
a fórmula seja a não
fórmula... Acho que cada
um deve seguir seu instinto e procurar
uma formação e experiência
diferenciada. Enquanto estudava em Londres,
escolhi alguns diretores e assisti a
todos os seus filmes combinando uma
leitura simultânea dos roteiros.
Depois, como exercício, desenhava
uma nova forma de contar cada sequência...
Não sei se funcionou, mas foi
divertidíssimo!