Por Marco Poli
Pois
enquanto passeava pelas ruas da Lapa, já
que tinha passado pelo Centro do Rio em dia
comercial a tempo de resolver umas encrencas,
escolhendo o local mais agradável pra
tomar uns chopes, cruzo pelo Bar Brasil
e loto o bar. Porque lá dentro
já estava um dos gordos mais espaçosos
-só a risada dele ocupa metade daquela
espelunca que serve uma vitela deliciosa- e
imediatamente este gordo que voz escreve também
se juntou à mesa, o que acabou com qualquer
espaço livre do ambiente. Sim, lá
estava o grande e simpático Carlos
Kober, com quem tive o prazer de trabalhar
em 2002 e que conduz o Domingão
do Faustão. Comemos e bebemos
até sermos varridos do buteco e, entre
lembranças e gargalhadas, conversamos
um tempão, colocando em dia a maioria
dos assuntos. Vou tentar reproduzir para os
nossos leitores algumas partes da nossa conversa,
já que o Kober não dá entrevistas
-ele diz que é uma qüestão
ética, mas eu acho que é pra se
livrar dos malas mesmo. Se, por acaso, eu cometer
algum exagero, por favor ponham a culpa no fator
etílico, afinal, Steinhägger
com Cerveja, faz pirá..!
Pra
quem não conhece, vou contar um pouco
da história de Carlos Kober.
Trata-se de um cara que nasceu em slow motion
(o que definiu sua tendência para televisão)
em Porto Alegre, na Beneficência
Portuguesa, onde reza a história
teria feito xixi no médico, porque quem
gosta de tomar porrada de saida é boxer.
Guri criado enfiado nos livros e discos, tocando
piano de parede e batendo tampas de panela pelos
quatro cantos de uma casa antológica,
na Avenida Oswaldo Aranha 404, hoje já
extinta. (Construíram um edifício
por cima das goiabeiras...)
Brincava de laboratório, de plataforma
de observação de estrelas, de
rádio galena. Coisas bem normais. Ou
quase. O avô construiu um laboratório
de experiências mirim, sem falar no joguinho
chamado Poliopticon, aquele
que dá pra montar lunetas amadoras para
espiar a Lua cheia, as estrelas cadentes e as
gurias do vizinho.
Estudou no Ipa (Instituto Porto
Alegre) , fez jornalismo na Famecos
e desde mui cedo foi apresentado pela
Vera Ferreira e o Juan
Carlos Sosa a esta caixinha de fazer
doido que é a Televisão. Foi edição
à primeira vista. Ao acabar o curso,
já trabalhava na extinta (coisa de dinossauro)
Videopuc como funcionário
e começando a atuar como novo professor
na Famecos.
Neste meio tempo, foi redator publicitário
da Artsul Propaganda (tambem
extinta) onde escreveu vários anúncios,
spots, textos-foguete e roteiros nem
tanto para revendas, cadernetas de poupanca
e montepios. Período em que aprendeu
o ofício de escrever, que além
de um vício solitário, é
também uma grande tesão.
Acabado o jornalismo e a fase de Videopuc, foi
pra RBS tocar os especiais,
o Jornal do Almoço,
o Sul em Canto, o Garota
Verão e tantos outros projetos
televisivos de peso. Quase chora ao lembrar
com carinho do RBS Revista,
que foi um derivado gaúcho do Videoshow.
Lídimo protagonista de grandes momentos
por lá e onde trabalhavam de 18 a 20
horas por dia, incansavelmente. E que, na paralela,
continuava professor da FAMECOS, da FABICO
e encontrando tempo ainda para montar uma produtora
especializada em documentários ecológicos,
a Pampeana.
Entre idas e vindas do mercado acabou criando,
em parceria com a Bandeirantes
e a Videopuc o projeto Fróide
Explica, um programa irreverente e
jovem na Bandeirantes. Foi um projeto maluco,
precursor de linguagem e de ritmo de edição.
E de idéias, que idéias.
Um belo dia , depois de voltar de mais uma campanha
vencedora em Santa Catarina foi chamado para
a TV Cultura de São
Paulo, onde assume o núcleo de musicais
e passa a conviver com grandes projetos como
o Bem Brasil, Viola Minha Viola, Ensaio,
Nescafé&Blues, Tropicália,
Heinecken Concerts, Kaiser Music, especiais
eruditos, balés, óperas, especiais
de todos os estilos. E ritmos.
Foi diretor geral do Projeto Rede Número
1, uma revista eletrônica diária
de esportes na ESPN BRASIL.
O formato do programa era completamente inusitado,
pois era uma grande merchandising com
jeitão de programa de esportes, muito
bem produzido.
Meio que na paralela vai para a TV SENAC
onde realiza o programa DEU TRAMPO
sobre profissões, com uma linguagem completamente
irreverente. E de vanguarda, mais uma vez.
Neste meio tempo fez vários
clips para a MTV, e especiais
musicais com o Engenheiros do Hawai,
Nenhum de Nós , Zélia Duncan,
João Gilberto, etc etc etc etc....
Passou por Brasília, (como diretor de
programação) na TV Filme
(TVA), tocando uma programadora e um
line up poderoso. E na TV Brasilia,
na assessoria da direção de programação.
De volta ao Rio, dirigiu a pilotagem nacional
da Unite, Universidade
Interativa Telemar, um projeto multimídia
poderoso que integrava todas as mídias.
Uma espécie de MBA virtual,
unida por fibra óptica e muita tecnologia.
E como este relato está
mais comprido que esperança de pobre,
chega na Rede Globo, a convite
da conterrânea Angela Sander
diretora-geral do Domingão do Faustão,
recém vinda do Videoshow. Amor antigo;
já estiveram juntos em outras oportunidades
como na RBS, na TV Cultura e agora no Projac.
O desafio agora é enorme, pois trata-se
de um produto de alto IBOPE
-faturamento e que está há 14
anos no ar.
Entre as poucas coisas que me lembro ter perguntado
ao Kober está essa coisa do mito sobre
a função "Diretor de Televisão".
Será que aqueles que sonham tanto com
a função fazem idéia do
quanto de "transpiração"
envolve colocar toda essa "inspiração"
no ar?
Batendo de sem-pulo o gordo respondeu na hora:
"filho de dois engenheiros agrônomos,
posso dizer que sou um diretor de raízes.
Ou seja, a base de meu expertise foi
mesmo meter a mão na massa. E não
basta querer ser diretor, tem que trilhar uma
árdua caminhada. Tem que entender de
luz, de som, de palco, de imagem, de psicologia,
de cenário, de variedades, de tudo um
pouco, num grande tuti-fruti profissional.
Tem que ter um excelente trato com as pessoas
e obsessão pela imagem. Para ser diretor
tem que ser inspirado e pirado, pois além
de ter soluções engatilhadas tem
que criar a todo momento mil outras saídas
criativas para antigos problemas. E mais do
que nunca trabalhar com um custo benefício
razoável. Ou entao ruuuuuua!
Uma carreira de diretor é feita de muita
observação, feeling e
carisma. Tem que pedir sem mandar, e comandar
com energia, pero sem perder la ternura.
Jamais... No meu caso, fui cinegrafista, editor
de imagens, produtor, suite, redator só
não varri o estúdio porque a vassoura
estava escabelada.
Recém vindo da vitória
da campanha do Rigotto governador,
minha vida deu uma bela guinada e lá
estamos no PLIM PLIM!
A esta altura o álcool
já me tirou o freio de mão e sou
obrigado a fazer a pergunta que todos querem:
o "Diretor" come muitas mulheres lindas
e famosas?
Olha só o que diz esse
debochado, enquanto pedimos mais uma rodada.
"Eu acho que o cara que inventou isso pegou
todas as minhas lindas e famosas. E me deixou
o refugo. A rapa do tacho. Quê isso, o
verdadeiro diretor não tem este privilégio.
Mas sabe das coisas. Se pirar e comer tudo que
encontra pela frente, até papel picado,
fica queimado em dois toques. Mas o assédio
é grande, com certeza".
E como quem está em
momentos de reminescência sempre fica
um pouco saudosista, pedi ao Kober que voltasse
para a Capital Gaúcha, onde tinha tantos
amigos, onde construiu uma carreira. Falei na
RBS que, afinal de contas tinha sido nossa casa
durante tanto tempo, aí o gordo filosofou...
"Eu penso que cada casa tem suas peculiariedades.
A RBS pra mim foi uma excelente escola. Um celeiro
de talentos, de gente poderosamente criativa
e potencialmente ativa. Tenho o maior carinho
pelos meus antigos colegas e principalmente
pela abertura que ela me deu para vôos
maiores. Já a Globo tem um parque técnico
maravilhoso, mas também uma responsabilidade
potencial. Eu diria que é como uma escada,
quando se pisa com firmeza e determinação
em todos os degraus, não tem diferença
na essência. Apenas na responsa. E no
tamanho do tombo, se por acaso alguma coisa
der errado. O mais importante de tudo é
saber que nossa trajetória é como
um ioiô (não falei, filosofia pura).
Sobe e desce, Sobe e desce. A Globo é
como a RBS o nome e o sobrenome de todos os
seus enormes e preciosos talentos.
Tentei trocar de assunto, que
a coisa estava ficando sentimental demais pro
meu gosto e entrei na política, afinal
eu e ele já fizemos mais campanhas que
muito político da velha guarda...
"Eu perdi a conta do número de campanhas
que já fiz, foi pra prefeito, governador,
presidente, deputado, etc.... faço campanha
desde 1992. O último grande desafio foi
ajudar a virar o jogo na campanha do Rigotto,
que subiu como um foguete contra todos os prognósticos.
Foi emocionante sair às ruas e ver o
povo cantando a música tema do candidato,
feliz da vida. Em Santos, foi assim também.
E em Joinvile, idem ibidem. Eu sou muito emotivo
e confesso que o que ficou foram os grandes
amigos, parceiros e colegas.
E já que estávamos no assunto
emendei uma de colegial, do tipo: como é
fazer uma campanha política, onde você
dirige uma pessoa normal e não um ator?
Lá veio o Kober filosofando,
de novo. "Todos nós temos um pouco
de atores. E de diretores. Nos diversos papéis
que vamos protagonizando pela vida fora, vamos
também descobrindo o jeito mais eficiente
de comunicar. O ator é um político
em potencial. E o político tem que ser
meio ator e meio apresentador. Ele tem que vender
uma proposta, um ideal e convencer. O diretor
de verdade é aquele que consegue desenvolver
um bom trabalho de marketing, sem esquecer
que a vida real é bem mais convincente
do que a ficção.
Aliás, tem uma passagem que costumo sempre
citar quando me falam sobre a atividade de direção:
Sabe, eu queria editar a vida
Retirar os maus momentos e pensamentos
Manter rodando todas as passagens felizes e
todos os boletins bem-sucedidos da realidade.
Infelizmente não deu, porque a vida é
ao vivo! (acho que já estamos muitos
chopes além do suportável...)
Aí, a coisa já
estava meio pasoliniana, mesmo, aproveitei para
pedir um conselho, caso eu fosse um desses malucos
que estão hoje ingressando no mercado,
coisa e tal...
Se conselho fosse bom a gente
cobrava, não dava de graça.
Mas posso dar um toque. OUVIR MAIS DO QUE FALAR.
Deus nos deu dois ouvidos e uma boca, exatamente
por conta disso.
E trabalhar em TV pode ser extremamente prazeiroso.
Desde que saibamos administrar a nossa ansiedade
e a nossa humildade. Na fogueira das vaidades
que move a telinha mágica, vence quem
souber transformar cada conquista e cada derrota
em uma lição de vida. Afinal,
quem sabe faz ao vivo. O lôco!