Capital Gaucha - Quando começou
sua carreira como jornalista e onde?
Candido Norberto - Profissionalmente
na Folha da Tarde, aqui em Porto Alegre
no
ano de 1949 como repórter.
Capital Gaucha - Esta vida de repórter
de jornal durou quanto tempo?
Candido Norberto - Praticamente toda
minha vida, por certa forma eu não tenha
deixado de ser repórter nunca, mas na Folha
da Tarde fui repórter por quase dez anos,
sendo que mais da metade deste período
também na Rádio
Gaúcha.
Capital Gaucha - Na Rádio Gaúcha,
também trabalhou como repórter?
Candido Norberto - Como repórter
improvisado no inicio, logo em seguida como
redator de
texto comercial, não demorou muito e eu já
estava travestido de comentarista fazendo
um comentário diário na rádio chamado: "Fato
de algumas palavras.".
Capital Gaucha - Qual a principal
diferença do jornalismo daquela época para
hoje?
Candido Norberto - Tecnicamente é
imensa, claro que é um jornalismo mais completo,
com os avanços tecnológicos na imprensa
propriamente dita no radio e na televisão.
Tudo isto de certa forma é jornalismo.
Faz-se jornalismo no jornal no radio e
televisão agora chamado
de telejornalismo.
Capital Gaucha - Por ter começado
a carreira como repórter em rádio e praticamente
ao mesmo tempo redigindo tipos diferentes
de textos para rádio, isto criou no jornalista
uma fidelidade ao texto está se perdendo
muito nas novas geração de jornalistas?
Candido Norberto - Se encontra sim,
nesta geração tem muita gente de grande
valor. Tem uma moçada aí da melhor qualidade,
até
porque a juventude hoje tem a chance de fazer
os cursos de jornalismo que estão aí, uns
mais e outros menos eficientes, mas sempre
representando a evolução do jornalismo, isto
é, em figura positiva. Não tenho nenhum preconceito
ao contrário
Capital Gaucha - Na sua época
o jornalista era autodidata?
Candido Norberto - Sim, pelo menos
não carecia do título dele, até porque não
existia curso de jornalismo, eu mesmo não
precisava fazer o curso, quando surgiu
o primeiro
curso, eu sou da primeira turma de jornalismo
da UFRGS. Fiz vestibular com mais oito
colegas.
Capital Gaucha - em que época foi
isto?
Candido Norberto - Foi em 1954, primeira
turma de jornalismo da UFRGS, que tivemos
como paraninfo que foi um nome marcante no
jornalismo brasileiro sim como colunista
Rubem
Braga talvez o mais festejado, mais louvado
de todos os colunistas que eu me lembre,
agora
já falecido, ele foi nosso convidado, nesta
época as turmas preferiam convidar paraninfos
ricos e nós convidamos um pobre, que morava
no RJ mandamos passagem ida e volta, pagamos
hospedagem no hotel e comemoramos depois
da formatura em um bar, na formatura no
salão
de atos estava lotado, completamente lotado,
talvez até pela popularidade do Rubem Braga,
o prestígio do colunista, muitos familiares
aquela coisa. Claro que o Rubem fez um
discurso
como paraninfo que, na verdade, foi uma crônica.
Eu fui o orador da turma e fiz um pequeno
discurso de aproximadamente oito minutos
apos tudo isto é que fomos para o bar, que
o Rubem Braga além de ser brilhante colunista
era um boêmio.
Capital Gaucha - A vida em boemia,
já faz parte do tradicional folclore do
jornalista, tinha uma história que o Carlos
Nobre ia para boemia com gravador ligado
para no dia seguinte
se lembrar das piadas, porque o pessoal não
entendia da onde ele tirava tanta piada
todos
os dias?
Candido Norberto - Sim, é folclore.
É que as piadas do humorista eram tão naturais
como a água do rio. Desta história do gravador,
eu não sei. Convivi muitos anos com ele,
mas não sei desta história, é folclore
mesmo.
Capital Gaucha - Hoje não se encontra
humoristas no jornalismo em geral, no rádio
está escasso e no jornal basicamente só nas
tirinhas?
Candido Norberto - Geralmente sim,
o que não exclui a presença de humoristas.
Em alguns casos de outra forma, por exemplo,
na Zero Hora tem o Marco Aurélio com charge
diária, e mais uma página nos sábados inteiramente
humorística. Fora isto, de um outro gênero,
tem o Luís Fernando Veríssimo. É um intelectual
da melhor qualificação, a meu juízo,
um gênio
indiscutível, inclusive da crônica erudita
no Brasil, e, não raro, até com muita freqüência,
faz humorismo nas suas. O Luís Fernando
Veríssimo
é muito eclético, ele tem muito talento para
escrever, muita competência e talento.
Capital Gaucha - Desta nova geração
que esta surgindo hoje, a juventude saiu
das
faculdades e tomou as redações?
Candido Norberto - Na redação da
Zero Hora você entra e leva um susto, é um
mar de gente jovem e até mais mulheres do
que homens, gente saída dos cursos de jornalismo
das nossas faculdades, e selecionados por
um concurso da Zero Hora, que tem uma seleção
bem rigorosa.
Capital Gaucha - E esta tendência
é de todos os grandes grupos do País?
Candido Norberto - Eu acredito que
sim, isto faz sentido até porque as empresas
têm que selecionar com rigor, tamanha é a
oferta de mão de obra. Seja para o jornal,
rádio ou televisão.
Capital Gaucha - Voltando a sua
formatura em 1954. Era uma época bastante
intensa na vida do jornalista pelos fatos:
o suicídio do presidente Getúlio Vargas.
Naquela
época tinha a quantidade de presença do sexo
feminina nas redações assim como hoje, que
inclusive na crônica política já é 50%
para cada lado?
Candido Norberto - Não tinha. Hoje,
na crônica, eu acho que sim. Têm cronistas
brilhantes, principalmente esta cronista,
Roseana Oliveira da Zero Hora, ela é comentarista
política nesta área e se sai maravilhosamente
bem. Tem muita gente de talento, aí têm
jovens, com textos da maior qualidade,
eu sou encantado
com isto.
Capital Gaucha - Na década de
50, os nomes femininos surgiam mais no rádio.
Existia mais uma abertura, tinha rádio novelas,
por exemplo, isso abria mais o mercado
de
trabalho?
Candido Norberto - Isto já é uma
história
completamente diferente, claro que o rádio
eclético de antes da televisão tinha setores
com forte presença feminina. Era indispensável
no rádio teatro, por exemplo, até mesmo
na locução, se bem que hoje a locução
está preponderantemente
masculina. É raro ver uma mulher locutor,
acho que nem existe.
Capital Gaucha - O rádio teatro
ficou forte só até a década de 60, depois
começou a cair?
Candido Norberto - O rádio teatro
começa morrer rapidamente quando se inventa
a televisão, embora ele, como atração,
fosse para o rádio o que telenovela vale
para televisão,
mas é evidente que com o advento da televisão,
o rádio tal como tínhamos, eclético, com
show teatro, até o próprio jornalístico
era equivalente ao que hoje a televisão
tem.
Capital Gaucha - E o locutor Cândido
Norberto também fez rádio novela, foi galã
e bandido?
Candido Norberto - Sim, até isto
eu fiz. Eu só podia ser galã, porque eu
não era
artista e galã qualquer um podia fazer. Bandido
era mais difícil, este quem fazia era o
Adroaldo Guerra.
Capital Gaucha - Daquela época,
que fazia rádio teatro e que ainda estão
em atividade no rádio hoje são Candido
Norberto e?
Candido Norberto - "Jaime Copstein",
só que ele não era de microfone e sim de texto,
aliás, se algum dia perguntarem o que eu fiz
de melhor na minha longa vida de rádio, eu
diria que foi ter organizado, na condição
de diretor artístico da radio gaúcha na década
de 50, a mais numerosa e melhor equipe de
redatores que a rádio da época teve e nesta
equipe estava o Jaime e a prova disto é que
esta aí hoje, vivo e atuando com destaque
o jovem Paulo Bisol , que era então acadêmico
de Direito, eu tive o prazer de reunir esta
gente na redação da Radio Gaúcha valorizando
ao máximo, naquele tempo, o texto, que eu
acho que agora é uma carência recente do rádio
de hoje, que dá ênfase ao improviso e não
ao texto. Eu acho melhor valorizar mais o
texto.
Capital Gaucha - O rádio jornalismo
hoje esta muito centrado em âncoras, muitas
vezes se fica horas em frente ao microfone,
independente de texto?
Candido Norberto - Todo programa
tem que se chamar uma âncora que promove
debates, entrevistas. Quem faz jornalismo
hoje, tem
planejamento e equipes de jornalismo grandes,
a Gaúcha, por exemplo, que eu conheço mais
de perto, que é o meu chão de tantos anos.
Capital Gaucha - Quantos anos
de Rádio Gaúcha?
Candido Norberto - Cinqüenta anos.
Praticamente desde o começo da minha carreira,
tenho algumas placas dentre outras que
marcam
isto.
Capital Gaucha - Desta época
toda de Radio Gaúcha, muita coisa viu acontecer,
por exemplo, o surgimento do Sala de Redação.
É verdade que foi uma idéia tua?
Candido Norberto - Olha, pelo menos
o titulo, foi o estilo, mas não criei a
entrevista não criei a notícia, isto é uma
história comprida,
o programa comemorou há pouco tempo, acho
que o mês passado, 30 anos.
O Sala de Redação veio hoje, mas não começou
assim o Sala de Redação, um programa jornalístico,
que me coube sugerir apresentar ao tempo que
a Rádio Gaúcha estava praticamente fora do
esporte, mas o Sala de Redação, com este nome,
entrou no ar anos antes, na Televisão Piratini,
programa semanal que eu fui fazer. Aí surgiu
o nome e o estilo que era, fundamentalmente,
a descontração na forma de apresentar desde
as notícias até as entrevistas e assim ele
permaneceu ao longo de muitos anos, 8 ou 9
anos em que eu estive, que eu apresentei.
Capital Gaucha - Quem mais era
fixo neste programa?
Candido Norberto - Primeiro, começou,
praticamente eu, solitário, num pequeno
estúdio
na Zero Hora que foi criado na redação, e
eu alimentava o programa com entrevistas,
conversas com os colegas que, naquele tempo,
tinham medo do microfone. Capaz de julgarem,
alguns deles, que o rádio jornalismo fosse,
digamos, gênero secundário do jornalismo,
como se dizia era a história do microfone
que começou há 30 anos e há poucos dias,
eu recebi um troféu recordando os trinta
anos do Sala de Redação.
Capital Gaucha - Este formato
do programa radiofônico?
Candido Norberto - foi o programa,
ao natural, se enriquecendo de gente, o Paulo
Santanna, por exemplo, pouco tempo depois
que eu comecei o programa ele foi se chegando,
eu o atraindo também, e ele foi botando para
fora todo este talento que o marca indiscutivelmente.
Ele já trabalhava há anos como repórter de
esporte, só que a Gaúcha não tinha mais esporte.
Quem fez a gaúcha voltar aos campos, que eu
posso citar e claro foi um que voltou agora
depois de uma longa jornada pela política,
o Ibsen Pinheiro, claro que quem mandava era
o Maurício, que é o presidente, que agora
está de volta aos microfones o Ibsen é muito
inteligente e muito talentoso.
Capital Gaucha - E como foi a
sua passagem pela política?
Candido Norberto - Quase 16 anos,
quatro legislaturas como Deputado Estadual
pelo Partido Socialista Brasileiro.
Capital Gaucha - Chegou a ser presidente
da Assembléia Legislativa, aconteceu a cassação?
Candido Norberto - Até isto aconteceu
comigo, fui presidente da AL, e minha cassação
foi no final do quarto mandato, e a façanha
maior na presidência da AL, foi ter, nesta
ocasião, condição de exercer a função
de Governador do Estado em vários períodos
porque, naquela
época, não existia a figura do Vice-governador.
Então na ausência do governador, quem assumia
era o presidente da AL, "até isto"
aconteceu com este Estado e apesar disto
ele sobreviveu (risos).
Capital Gaucha - Quem era o governador
na época?
Candido Norberto - Era o Meneghetti,
e depois foi substituído pelo Brizola, claro
não propriamente dito que o Brizola ganhou
do Meneghetti, é que, na época, não podia
se reeleger, então o Brizola se candidatou
e ganhou, no fim do mandato do Brizola,
quatro
anos depois, o Meneghetti se candidata ao
governo do Estado e ganha substitui
o Brizola.
Capital Gaucha - Em que ano aconteceu
sua cassação, e qual foi o motivo?
Candido Norberto - Foi em 1966, eu
não me lembro qual foi o ato que me cassou.
Capital Gaucha - Mas foi por algum
discurso muito inflamado ou não?
Candido Norberto - Por algum não,
eu fiz vários discursos, de 1964 em diante
o que eu mais fiz foi discursos de crítica
ao governo, de combate à ditadura.
Capital Gaucha - E depois do longo
tempo de democratização não houve mais interesse
de se candidatar a concorrer?
Candido Norberto - Não, a minha decisão
eu tomei em seguida da cassação, que não
queria mais voltar para política. Convites é claro
que não faltaram, após os 10 anos, um dos
que insistiam muito comigo para que concorresse
era o Ibsen Pinheiro, à Câmara Federal ou
à Assembléia Legislativa. Outro dia, estava
recordando que o Ibsen e o César Schirmer
foram me procurar, eu estava naquela época
dirigindo a TVE, me convidando para que
eu
concorresse. Escolher se iria para federal
ou estadual, que de acordo com minha escolha,
eles decidiriam se iriam para federal ou
estadual, mas eu agradeci, é claro, mas
já havia tomado
minha decisão de não voltar mais à política
por varias razões, e até por uma sobretudo:
é de que para mim e para quem leva o mandato
a sério, o tempo de deputação, aqueles anos
todos foram muito duros, difíceis um mandato
levado a sério dá muito trabalho absorve
muito a gente e cria situações muito
delicadas, até no ponto de vista pessoal,
se tem até
que brigar com pessoas quem se convive diariamente
e com as quais se estabelece até relações
cordiais, de certa forma a nível de amizades
e você tem que se submeter a isto no comprimento
do mandato. Quem leva a sério o mandato,
tanto o legislativo, quanto o executivo,
pena muito,
trabalha muito e se angustia até muito. De
maneira que, quando fui caçado, eu tive
uma sensação de libertação, me sentindo
livre outra vez, porque não tinha que voltar
para o tormento. Embora tenha me dado muito
prazer
e satisfação, me passou a consciência de
que eu tinha dado a minha contribuição para
a vida pública. Contribuição esta que eu
acho que todo cidadão deveria dar.
Capital Gaucha - Mento assim o
político e o jornalista sempre conviverão
juntos, nunca abandonou a imprensa pela
política?
Candido Norberto - Não, mas limitei
muito. Condicionei as atividades fazendo
rádio
e televisão no tempo que eu podia dispor,
eu fazia um programa matutino, por exemplo,
que eu gravava de madrugada. A Assembléia
era em primeiro lugar, no meu caso o jornalista
sempre se manteve.
Capital Gaucha - O senhor elogia
muito a nova geração, na sua opinião o que
facilita o estudante deixar de ser estudante
e se tornar profissional? O que é mais importante
para quem esta começando, além da perseverança
e do talento?
Candido Norberto - Sim, elogio sim,
faço justiça, mas é claro que tem gente
boa mas também tem gente ruim, o bom profissional
sempre existiu, e hoje tem a presença muito
grande dos chamados estagiários, principalmente
no radio, e, no caso da RBS, além do
curso, se promove uma seleção num curso
de jornalismo. Claro com menor duração,
mas este curso é
para selecionar 200 ou mais, a perseverança
é muito importante, até para conseguir emprego
não está fácil. Motivo: mercado relativamente
muito estreito por uma oferta muito grande.
Todos os anos, os cursos de jornalismo põem
um numero muito grande jovens no mercado,
se bem, que o de jornalismo se ampliou. Tem
muitos setores de trabalho, hoje, que antes
não existiam, alguns nas rádios porque existem
rádios e rádios, televisão, o jornal, a
internet e a televisão que absorve muita
gente.
Capital Gaucha - Goi fundamental
não abandonar sua carreira de jornalista?
Candido Norberto - Sim, foi importante,
até porque eu entrei na política meio de
improviso, de repente, me lancei como candidato
e me
elegi, depois eu fui na correnteza do fato
político que é muito envolvente, depois
de entrar e se envolver, sair é mais complicado,
entre outros motivos que se deve tentar
a
reeleição, existe este desejo de ter força,
de necessidade de saber se a gente correspondeu
à confiança que recebeu de milhares de pessoas.
Eu tive este prazer, a primeira legislatura
foi conseguida através da popularidade do
rádio e as outras, eu acho que porque me
dediquei
à atividade parlamentar. Eu acho que por
alguma razão e, felizmente, com votações
sempre crescentes em Porto Alegre, nunca
perdi para ninguém
para deputado.