Aos
65 anos, o carioca Domingos Meireles
tem dois livros lançados e passagem
pelos principais veículos de comunicação
do País. Há dez anos, o
ex-vendedor de máquinas de escrever
e "não-diplomado" jornalista,
é repórter especial da Rede
Globo. Desde 1985, trabalha na televisão.
Em 1965, ingressou na “redação
de constelações” da
época – como definiu o jornal
A Última Hora. A razão da
mudança de profissão: “o
estado de indignação”
em que ficou com o Golpe de 64 e com o
apoio de todos as outras empresas jornalísticas
aos militares.
Em um encontro de quase quatro horas,
Meireles estimulou o público do
3º Seminário Comunicação
e o Legislativo Municipal a perguntar
sobre o período político
da República Velha do Brasil. Visto
sob a ação de tenentes e
de militantes como Luis Carlos
Prestes, o tema dos dois livros
lançados pelo jornalista foi o
foco da palestra. A forma incansável
de responder às dúvidas
de representantes de Câmaras de
Vereadores de municípios gaúchos
e catarinenses e a mesma voz calma e firme
com a qual apresenta o programa Linha
Direta toda a semana na TV Globo instigou
os participantes a também apresentarem
opiniões sobre o cenário
político contemporâneo.
Além de detalhes sobre os livros
“A noite das grandes fogueiras”
(1995/Record) e “1930: Os Órfãos
da revolução” (2005/Record),
Meireles - utilizador de metáforas
e expressões como “vítimas
do arbítrio” “testemunha
mumificada” e “redação
de constelações” -
recorreu sobre o conceito e a significação
da Memória para o brasileiro (tema
deste Seminário), a importância
da leitura e a profissão de jornalista.
Domingos Meireles foi o palestrante da
abertura da terceira edição
do evento organizado pela Associação
de Servidores de Câmaras do Rio
Grande do Sul - Ascam-RS. Abaixo, estão
questões abordadas pelo jornalista
durante a apresentação,
assim como respostas aos questionamentos
do Capital Gaúcha feitos ao jornalista. |
por
Grazieli I. Binkowski
O
Jornalista das Metáforas e dos Livros
Memória
“É
a perda de referência pela qual é
comedida a sociedade brasileira”. Tanto
o conceito, como o significado da palavra tem
relação estreita com o a vida
profissional de Meireles como jornalista. Começou
como repórter do jornal a Última
Hora com o objetivo de militar contra a ditadura.
Escreveu dois livros, a fim de recuperar episódios
não registrados, ou não relevados
de maneira merecida pela sociedade, sobre as
revoltas tenentistas.
Segundo o jornalista-escritor, o livro, porque
é constituído por palavras, é
o único meio de comunicação
capaz de manter a memória. Para ele,
a leitura é fundamental ao País.
Por isso, define que a maior tragédia
nacional é a não existência
de um programa de incentivo à leitura.
Sem leitura, não há memória.
Quem não tem memória tende a repetir
o erro. Essa é a tragédia do País.
E com isso, é mais fácil lidar
com o rebanho. É preciso que este País
resgate a sua memória, pois o tempo é
uma construção do homem. “A
batalha de hoje é contra ignorância
e conhecimento. A política serve par
manter este País nas trevas.”
Livros
“Como cheguei às histórias,
já que sou jornalista?”
Em 1974, fez uma matéria sobre a Coluna
Prestes e percebeu que os colegas de redação
não tinham referência, não
sabiam ao certo o que tinha sido a Coluna Prestes.
Confundiam datas e episódios. Isso acontecia
até com professores. Durante dois meses,
passou reconstituindo, com a ajuda de dois ex-tenentes
combatentes – Juarez Távora
e Cordeiro de Farias –
a marcha da Coluna. Fez reportagens para o vespertino
do Estado de São Paulo, o Jornal da Tarde.“Fiquei
impressionado com os pequenos achados que descobri
com a matéria.”
“As
noites das grandes fogueiras” foi publicado
em 1995. Inspirado na marcha revolucionária
de Luís Carlos Prestes, com fatos que
não existiam em livros de história.
Uma das conclusões foi que a “história
sempre é contada pelo vencedor”,
e ele a manipula. Isso chamou a atenção
de Meireles: “eu nunca havia pensado assim”.
Com vendagem de 55 mil exemplares, o livro está
na 11º edição. Com o primeiro
livro, o jornalista quis despertar nas pessoas
o interesse pela leitura. Através dele,
tentou colocar questões para reflexão.
“1930:
Os órfãos da Revolução”
é a segunda obra. Foi lançada
em dezembro de 2005. Está na terceira
edição. Vendeu 15 mil exemplares.
Neste livro, aprofundou a técnica utilizada
já no primeiro livro, mas aprimorada
no segundo: O fato é contado através
do que os jornais reportaram na época.
Depois, o jornalista narra o mesmo fato segundo
perspectiva da polícia e como os policiais
reproduziam os acontecimentos aos seus chefes.
Por último, o ponto de vista de políticos
é apresentado. “É muito
interessante como cada lado conta uma história
diferente”.
Além
desse método utilizado, o autor desenvolve
uma “engenharia cenográfica”.
Juntamente com os acontecimentos, Meireles descreve
o figurino, os hábitos, os costumes,
a arquitetura da época. Através
dessa contextualização, o autor
tentou deixar a leitura mais prazerosa. A partir
disso, foi construindo os personagens.
“Com
os dois livros, tive uma visão missionária”:
A reflexão de acontecimentos atuais da
política nacional e de como a leitura
é importante para a preservação
desta leitura. Ao mesmo tempo, os fatos pesquisados
em arquivos da Biblioteca Nacional, no Rio de
Janeiro, de universidades e outros institutos,
inclusive arquivos pessoais de personalidades
brasileiras, revelaram importantes ocorrências
da República Velha no Brasil (período
classificado entre os anos de 1989 e 1930).
Profissão
No Golpe de 64, Meireles não participava
de partidos ou apoiava grupos políticos.
Era vendedor de máquinas de escrever.
Resolveu que deveria trabalhar em um jornal
para protestar contra o Golpe de Estado que
instituiu o período de 24 anos de Ditadura
Militar (apoiado pela maioria da imprensa).
O jornal a Última Hora, ainda de Samuel
Wainer, era o único que não
apoiava o Golpe. Ao invés de se alistar,
resolveu conversar com pessoas influentes do
Jornal para arrumar um emprego lá. O
Jornal era seu cliente.
Meireles foi contratado para a redação,
mesmo sem curso superior, o que na época,
era comum no jornalismo (existiam três
cursos de jornalismo no Rio de Janeiro). Era
um período que se aprendia na redação
e a figura do Foca – hoje substituída
pelo estagiário– estava presente.
Como iniciante, foi adotado pelo Maurício
Azêdo, atual amigo e companheiro
no quadro dirigente da Associação
Brasileira de Imprensa. Azêdo é
diretor da ABI.
Na época, a Última Hora tinha
uma constelação de bons jornalistas:
João Saldanha, Agnaldo
Silva, Nelson Rodrigues
– que era meio desprezado pela redação
devido ao seu apoio ao Golpe -. Eles foram forjando
o caráter de jornalista de Meireles.
Hoje, não existe esta cultura, mas antes
havia a questão do jornalista ter uma
“lado”. Defendia-se um ponto de
vista. Na época, a Última Hora
defendia as “vítimas do arbítrio”
do Golpe, da Ditadura.
Lado:
não significa que o jornalista tem que
adulterar os lados, desvirtuar ou adaptar aquele
relato a sua visão de mundo. Tem que
ter ruma visão clara a serviço
do patronato e dos interesses da sociedade.
O jornalista não é um mero relator
de circunstâncias, ou aquele que apenas
permite que as coisas se desenrolem a sua frente,
sendo apenas uma “testemunha mumificada”.
Ele deve fazer jus ao peso que a profissão
tem.
Imparcialidade:
é conto da carochinha. Os jornais têm
interesses bem determinados. Grandes batalhas
são travadas dentro das redações.
Cita Carlos Wagner, repórter
da RBS: “As grades batalhas são
travadas dentro da redação”.
“Repórter para sobreviver, tem
que ser um combatente”.
Carreira:
Meireles tem 21 anos de televisão. Antes
de ingressar na Globo, trabalhou no Estado de
São Paulo e no antigo Jornal da Tarde,
da mesma empresa. Fez parte da equipe da Editora
Abril, nas revistas Quatro Rodas, Cláudia,
Realidade e Veja.
Prêmios:
1972 – Esso, edição especial
sobre Amazônia na Revista Realidades;
1982 e 1992 – Wladimir Herzog
1993 – Rei da Espanha de Televisão
Jornalismo
O jornalista, através do desempenho da
profissão, deve participar da ruptura
que Meireles acredita que vai alterar a realidade
atual – de pouca reflexão e desconhecimento
do passado e entendimento do presente -, para
construir uma melhor. Entende que o curso não
é qualificado e, por isso, também
não qualifica o estudante para a atividade.
Por isso, indica, além de muita leitura,
o desenvolvimento de outras capacidades: a escrita,
a computação gráfica. Justifica:
“Acho os cursos muito ruins porque são
ocupados por jornalistas que se formam e não
conseguem entrar no mercado. Então, fazem
um mestrado e começam a lecionar. Além
disso, as faculdades estão virando cursos
técnicos.” Outra característica
fundamental do jornalista é a humildade.
Deixar o entrevistado falar, não achar
que sabe mais que ele e sabe sobre qualquer
coisa. Deve-se acabar com a arrogância
dos jornalistas. O José Hamilton
Ribeiro, meu colega, chama de “inteligência
burra” o que os jornalistas têm.
Curiosidades
Trabalhou no Sistema Brasileira de Televisão-
SBT entre 1997 a 1999. Fez o programa SBT Repórter
durante esse período porque trabalhava
com colegas que foram da Globo, como Ciro
Bocanera, Marília Gabriela
e Roberto Cabrini.
Voltou à TV Globo por causa de uma previsão
de sua taróloga, que disse que ele iria
receber uma ligação de uma mulher
poderosa. Já na Globo, ficou “encostado”
cerca de dois anos até começar
a apresentar o programa Linha Direta, no qual
permanece. Durante esse período, dedicou-se
ao segundo livro.
Atividades
Futuras
Continua no Linha Direta. Está pesquisando
sobre o ano de 1932.
Deve escrever outro livro.
Linha
Direta
Meireles responde à críticas quanto
ao apelo à audiência do Programa
utilizando histórias de violência:
“o programa é questionado devido
ao preconceito que se tem aos personagens. A
tragédia é a mesma que uma novela
apresenta. Só que a novela apresenta
pessoas bonitas. Uma fantasia. A Miséria
é feia.” Além disso, aponta
que é visto pelas pessoas de classe mais
baixa como resposta à casos de polícia
ou auxílios, inclusive relacionados a
crenças religiosas. “Muita gente
vê o programa como salvador, de serviço".