Muitos
desconhecem,
mas o Brasil conta com um representante
na Câmara de Deputados
italiana. Fabio Porta nasceu em
Caltagirone, na Sicília,
mas vive no Brasil desde 1998.
Formado em Sociologia Econômica
pela Universidade La Sapienza,
em Roma, foi eleito Deputado
pelo Parlamento Italiano pela circunscrição
América Meridional, nas
listas do Partido Democrático,
com quase 17 mil votos, em 2008.
Conheça os seus principais projetos
e como ele está representando uma
comunidade de quase 25 milhões
de italianos e descendentes residentes
no país. |
Capital
Gaucha - A Itália
acaba de passar por um enorme trauma com o
terremoto ocorrido em Abruzzo, que vitimou
centenas de pessoas e deixou outras tantas
desabrigadas e desamparadas. Como o sr. e o
seu gabinete atuaram para apoiar as vítimas
dessa tragédia? Houve alguma iniciativa
de apoio não só aos brasileiros
que moram na região, mas também à população
em geral?
Fábio Porta - Toda a Itália
mobilizou-se prontamente em ajuda à população
de L' Aquila e da região de Abruzzo
atingidas pelo terrível terremoto. Os
Deputados decidiram imediatamente contribuir
com um mínimo de 1000 euros através
de um abaixo assinado aberto pelo Presidente
da Câmara; os italianos do Brasil também
se uniram às doação vindas
de toda as partes do mundo, enviando contribuições
em dinheiro para a reconstrução
da zona atingida.
Capital
Gaucha - A questão da obtenção
da cidadania italiana é talvez o tema
que gera maior discussão e revolta por
parte dos descendentes que por aqui moram.
Muitos tem esse direito assegurado por lei,
mas acabam tendo que esperar de 15 a 20 anos
por uma confirmação do reconhecimento
da cidadania, visto que uma minoria acaba tendo
condições de ir ao exterior para
tentar obter a mesma de maneira mais rápida.
Como o senhor está buscando solução
para este problema? É possível
desburocratizar este processo nestes moldes
que ai estão ou a solução
seria alguma alguma mudança mais profunda
na lei do direito de cidadania?
Fábio
Porta - O problema é antigo
e complexo. É um dos pontos do meu programa
parlamentar e uma preocupação
constante minha. É necessário
agir em um número maior de frentes.
Em primeiro lugar organizando como propus junto
aos Comitês dos Italianos no Exterior
e ao Conselho Geral dos Italianos no Exterior
do Brasil uma "força tarefa" específica
que dê forças econômicas
e pessoal, aos Consulados, para esse trabalho
específico de eliminação
de tantas práticas acumuladas. Em seguida,
intervindo na simplificação dos
prazos e dos procedimentos administrativos
e burocráticos: é necessário
insistir e trabalhar para que o Brasil possa
aderir à Convenção
de Haia sobre as "apostilas" que
evitariam a tradução de tantos
documentos, com incidência sobre os custos
e os prazos dos processos. Finalmente, sob
o aspecto legislativo, aprovando a lei que
concede às mulheres nascidas antes de
1948 o direito de transmitir a cidadania aos
próprios filhos e a recuperação
da cidadania para os que tenham se naturalizado.
São todos assuntos sobre os quais estou
pessoalmente empenhado.
Capital
Gaucha - Representar o Brasil na Itália é uma
responsabilidade enorme, tendo em vista que
cerca de 25 milhões de italianos e descendentes
encontram-se espalhados por todo o país.
Como o senhor avalia a sua participação
na câmara italiana? Quais os principais
projetos que o senhor está defendendo
atualmente?
Fábio Porta - É verdade, ser
o único parlamentar italiano residente
no Brasil implica em uma responsabilidade enorme.
Isso por que represento a maior comunidade
de ítalo descendentes no mundo; uma
comunidade extraordinária, com uma história
que todos deveriam conhecer. Por esse motivo
apresentei o meu projeto de lei para introduzir,
na Itália, o estudo, em todas as escolas
de todas as ordens e graus, da história
da emigração italiana no mundo,
da qual a brasileira constitui uma parte importantíssima,
não só do ponto de vista quantitativo
mas também pela qualidade das pessoas
que para cá emigraram. Representar os
italianos no exterior significa, acima de tudo,
tornar sua história conhecida, o seu
passado, bem como o seu presente e a possibilidade
de desenvolvimento futuro desse patrimônio.
Apresentei também uma lei para reformar,
isto é, reorganizar, adequar e melhorar
o sistema de representação dos
italianos no exterior e para tornar mais eficiente
a participação dos italianos
e de seus descendentes nas decisões
políticas que lhe dizem respeito. Estou
então empenhado a apoiar aqueles municípios
brasileiros que, como Porto Alegre, introduziram
o ensino da língua italiana nas escolas
públicas, porque considero fundamental
a recuperação das raízes
históricas e também lingüísticas
por parte da comunidade italiana que tanto
foram marcadas pela história da emigração
italiana.
Capital
Gaucha - A Argentina conta com dois
representantes na câmara e dois no
senado italiano, uma representação
considerável
tendo em vista o tamanho do país. Por
que o Brasil atualmente não conta com
maior número de representantes na Itália,
já que milhões de pessoas com
cidadania já reconhecida tem direito
ao voto e as vagas são para o continente?
Fábio Porta - Os motivos são
diversos. Seguramente a grandiosidade e a importância
da comunidade italiana do Brasil mereceria
uma maior representação no Parlamento
Italiano. Infelizmente, apesar da coletividade
de ítalo-descendentes ser maior no Brasil,
na Argentina o número de italianos com
passaporte é superior ao dobro do número
correlato no Brasil. É essa, na realidade,
a causa do problema da longa espera da "fila
da cidadania" à qual me referi
anteriormente. Por esses motivos, é necessário
diminuir essa diferença de números
eliminando esse enorme e vergonhoso atraso
dos processos de cidadania remanescentes nos
consulados italianos no Brasil; da mesma forma, é necessário
explicar bem aos italianos no Brasil os mecanismos
eleitorais e a importância de estar unido
a candidatos que têm reais chances de
serem eleitos. Infelizmente, a divisão
e a falta de informação entre
os italianos do Brasil contribuiu para a perda
do nosso representante no Senado e correu o
risco, também, de perder a nossa cadeira
na Câmara. Por esses motivos é importante
o trabalho dos meios de informação,
italiano e brasileiro; informação
insuficiente ou errada pode, na realidade,
contribuir para eliminar a presença
dos ítalo-brasileiros no Parlamento.
Capital
Gaucha - Sr.Deputado, diante de mais um referendo
europeu, o primeiro-ministro Silvio
Berlusconi demonstra que vai estar muito engajado
na campanha para tornar seu partido (Povo da
Liberdade) o mais representativo no parlamento
de Estrasburgo. Qual a sua avaliação
sobre este referendo e qual o seu posicionamento
dentro do mesmo?
Fábio Porta - A eleição
do Parlamento Europeu, que acontece contemporaneamente
em todos os países da União
Européia, é um acontecimento
democrático muito importante que não
deveria ser contaminado por questões
políticas locais. O Partido Democrático,
principal partido de oposição
ao governo de Berlusconi, apresentará candidados
sérios que se empenharão em
Strasburgo para levar adiante as políticas
de integração e de desenvolvimento
social e econômico da Europa. Berlusconi
candidata-se sabendo que no dia seguinte
se demitirá e não irá mais
sentar-se nas cadeiras do Parlamento Europeu. É uma
grande falta de respeito em relação
aos eleitores italianos. Utilizar as eleições
européias como um referendo a respeito
de um governo de uma nação é errado.
Espero que os italianos não dêem
a uma pessoa que governa desse modo mais
um sucesso eleitoral; a democracia, na realidade,
baseia-se no equilíbrio entre os poderes
e entre a maioria e a oposição.
Não queremos imperadores.