Concebida
como uma atividade paralela à realização
do Fórum Social Mundial 2010, que acontece
em Porto Alegre entre os dias 26 e 31 de janeiro,com
entrada franca, a mostra Outros Mundos - O
Cinema Contra as Injustiças da Globalização
reúne títulos que abordam questões
sociais e econômicas relacionadas ao
mundo contemporâneo.
De
clássicos do cinema político,
como o italiano Queimada, de Gilo Pontecorvo,
e o brasileiro Iracema, uma Transa Amazônica,
de Jorge Bodanzky e Orlando Senna, a filmes
de produção recente sobre temas
tão distintos como reforma agrária,
fome, desemprego, movimentos coletivos e globalização.
A mostra é uma contribuição
do CineBancários a este grande debate
em busca de um mundo melhor que irá mobilizar
a capital gaúcha na última semana
de janeiro.
Entre
os vários destaques da programação,
está a estreia de dois filmes brasileiros
inéditos em Porto Alegre, o longa Meu
Brasil, de Daniela Broitman, e o média
metragem Ctrl-V::Video Control, de Leonardo
Brant. Ambos os filmes terão sessões
comentadas por seus diretores. Daniela Broitman
apresenta seu filme na abertura da mostra,
dia 26 de janeiro, às 19h. Já na
quarta-feira, dia 27 de janeiro, também às
19h, é a vez de Leonardo Brant discutir
seu filme com o público.
Outra
atração da mostra é uma
serie de documentários franceses de
temática social cedidos pela Cinemateca
da Embaixada da França do Rio de Janeiro,
com títulos como Operárias do
Mundo, Uma Empresa Decente e o monumental O
Fundo do Ar é Vermelho, obra-prima de
Chris Marker realizada em 1977, com três
horas de duração.
Todas
as sessões da mostra Outros Mundos – O
Cinema Contra as Injustiças da Globalização
tem entrada franca, em três horários
diários; 15h, 17h e 19h.
SINOPSES DOS FILMES:
Iracema,
uma Transa Amazônica (de Jorge
Bodansky e Orlando Senna. Brasil, 1981, 90
min.)
Em
1974, em plena ditadura, quando o governo
militar alardeava a propaganda da construção
do “Brasil Grande”, Jorge Bodanzky,
Orlando Senna e Wolf Gauer filmam Iracema — uma
transa amazônica, ficção
com uma feição documental que
se tornou marco na cinematografia brasileira.
O filme faz um contraponto à propaganda
oficial da época sobre a Amazônia,
revelando as queimadas, o trabalho escravo
e a prostituição infantil através
da história da menina ribeirinha Iracema
que, atraída pela cidade grande e pela
lábia do motorista de caminhão
Tião Brasil Grande, acaba se prostituindo às
margens da rodovia Transamazônica. Proibido
durante seis anos no Brasil, recebeu inúmeros
prêmios em festivais internacionais.
Em 1981, foi o grande vencedor do Festival
de Brasília do Cinema Brasileiro
Mais
que a Terra (de Elizeu Ewald. Brasil,
1990, 74 min.) + Estado da Seca (de Adriana
Cursino. Brasil, 2007, 18 min.)
Os
dois filmes reunidos neste programa mostram
a realidade de quem trabalha com a terra no
Brasil, uma das questões sociais mais
complexas do país e um tema sempre atual.
Mais que a terra, primeiro longa de Elizeu
Ewald, foi produzido em1990, em pleno desmonte
da atividade cinematográfica no país
pelo governo de Fernando Collor de Mello, o
que o tornou praticamente desconhecido do público. É um
dos primeiros longas-metragens de ficção
a focalizar as invasões de terras improdutivas
em prol da reforma agrária nas fronteiras
da Amazônia e os problemas sociais, econômicos
e políticos decorrentes dessas invasões.
A busca por uma vida melhor impulsiona o filme,
mas é a terra, sua conquista e sobrevivência,
o tema central.
O
documentário Estado de Seca, realizado
quase 20 anos depois em Minas Gerais, também
trata da questão agrária; no
caso, da sobrevivência econômica
de uma comunidade a partir do programa Bolsa
Família.
À Margem
do Concreto (de Evaldo Mocarzel. Brasil,
2005, 80 min.) + Casa de Cachorro (de
Thiago Villas Boas. Brasil, 2001, 26 min.)
À Margem do Concreto e Casa de Cachorro
são retratos marcantes da questão
habitacional no Brasil contemporâneo.
O primeiro assume a linguagem do documentário
de reportagem para falar dos movimentos urbanos
de ocupação de moradias, com
fortes imagens de operações de
despejo.
O
curta-metragem Casa de Cachorro descobre
um grupo de famílias que usa os canteiros
de uma via expressa de São Paulo como
local de moradia e trabalho, produzindo casas
de cachorro em carpintaria. A justaposição
dos depoimentos dos fregueses e dos moradores
compõe um pequeno retrato — de
cunho político — da exclusão
social no Brasil.
Encontro
com Milton Santos ou o mundo global visto
do lado de cá (de Silvio Tendler.
Brasil, 2006, 90 min.)
O
filme trata do processo de globalização
com base no pensamento do geógrafo Milton
Santos, que, por suas idéias e práticas,
inspira o debate sobre a sociedade brasileira
e a construção de um novo mundo.
Meu
Brasil (de Daniela Broitman. Brasil, 2007,
70 min.)
O
que leva alguém a lutar contra todos
os tipos de discriminação, enfrentando
intensa pressão do tráfico de
drogas e de partidos políticos, com
o único objetivo de melhorar a condição
de vida de sua comunidade? “Meu Brasil” se
propõe a responder esta questão
acompanhando o difícil dia-a-dia de
três líderes comunitários.Gaúcha,
cujo sonho era ser cantora, vem do Rio Grande
do Sul para o Rio de Janeiro à procura
de uma vida melhor. Trabalhando como cozinheira
na casa da família de Irineu Marinho,
ela começa a se politizar. Já o
carismático instrutor de mergulho Carlos,
depois de sofrer uma grande desilusão
amorosa, tenta reerguer sua auto-estima promovendo
ecologia e cidadania nas favelas. Enquanto
isso, a corajosa travesti Juliana luta pela
implementação do terceiro banheiro
na pequena cidade de Três Rios. Em busca
de seus ideais, eles embarcam para Porto Alegre
com outros 30 líderes comunitários
numa surpreendente jornada ao Fórum
Social Mundial, o maior evento global sobre
temas relacionados à justiça
social.Apresentando: 33 líderes comunitários,
Presidente Luiz Inácio Lula da Silva,
Presidente Hugo Chávez, Eduardo Galeno,
José Saramago, Ignácio Ramonet,
Gliberto Gil, Frei Betto e Leonardo Boff.
O
fundo do ar é vermelho (Le Fond de
L'Air est Rouge, de Chris Marker. França,
1977, 180 min.)
As
esperanças e as decepções
suscitadas pelos movimentos revolucionários
de 68 no mundo inteiro. Desde o regime chinês
ao cubano, passando pela Primavera de Praga
ou os movimentos estudantis e operários
franceses, Marker nos relembra constantemente
que não se pode simplificar o que nada
tem de simples: as manifestações
populares, os movimentos da política,
os rumos incertos da História e da sociedade.
O filme é composto por duas partes: "As
mãos frágeis"e "As
mãos cortadas", ambas com 90 min
(versão de 1998).
Operárias do Mundo (Ouvrières
du Monde, de Marie-France Collard. França/Bélgica,
2000, 57 min.)
No
outono de 1998, a marca Levi’s anuncia
a sua intenção de reestruturar
as suas atividades na Europa, transferindo
para o exterior seus locais de produção.
Na Bélgica e na França, operárias
vivem seus últimos meses de trabalho
na fábrica, enquanto que na Turquia,
nas Filipinas e na Indonésia outras
operárias lhes fazem, involuntariamente,
uma concorrência fatal, sem no entanto
recolher os respectivos frutos. Ao ritmo de
seus combates e negociações,
do sofrimento dos derradeiros momentos e do
medo do futuro, um sentimento de impotência
persiste, face à lógica implacável
da globalização econômica. É um
documentário emocionante, que tem por
objetivo devolver a humanidade e a dignidade
dessas mulheres que lutam pelos seus direitos.
Premios:
Prix Jean Lods des Grands Prix Scam, 2001
Prix du Public 11éme Festival du Film
de Femmes à Cologne, 2002
Prix du Public Festival International Dignité et
Travail à Gdansk, 2004
Prix du meilleur documentaire au Festival de
vidéo à Thème social de
Liège, 2005
Uma
Empresa Decente (A Decent Factory, de Thomas
Balmès. França/Finlândia,
2004, 79 min.)
Ter
lucros ou guiar-se por princípios
morais ? A questão é crucial
para uma empresa como a Nokia, que está transferindo
a sua produção para a China,
país em que a mão de obra é barata.
Seu “ especialista em civilidade ” visita,
então, a fábrica chinesa para
ver como se organiza o seu fornecedor e sobretudo
para tentar remediar as conseqüências
da transferência de mão de obra
para o exterior : corrupção,
direitos humanos, higiene e habitação
deixados de lado. Mas, o que é uma empresa
correta ? Se as multinacionais têm tentado,
desde há pouco tempo, se dotar de uma
nova imagem ética, a questão
da responsabilidade social estendida aos serviços
terceirizados permanece sendo um dos grandes
desafios da globalização.
Queimada (Burn! / The Mercenaryde, de Gilo Pontecorvo.
França/Itália, 1969,
115 min.)
No século XIX um representante inglês é mandado
para uma ilha do Caribe que se encontra sob
domínio português, para incentivar
uma revolta para favorer os negócios
da coroa inglesa. Dez anos depois ele retorna,
para depor quem ele colocou no poder, pois
o momento econômico exige um novo quadro
político na região.
Globalização, Violência
ou Diálogo (Mondialisation, violence
ou dialogue?, de Patrice Barrat. França,
2002, 52 min.) + Por um Comércio Equitativo
(Vers un commerce Équitable, de Jean
Lefaux e Martine Bou. França, 1999,
47 min.)
Após os violentos eventos de Seattle
e Gênova, por ocasião das cúpulas
do G8, vêm o 11 de setembro e suas repercussões
mundiais. A ideologia do Bem contra o Mal,
a de uma guerra entre diferentes culturas e
o confronto entre religiões também
se enquadram no âmbito da globalização.
Em Globalização... encontramos
uma reflexão sobre o início do
nosso século pois, embora as oposições
entre partidários e contestadores da
globalização sejam apenas verbais,
não deixa de ser verdade que as visões
antagonistas entre “a sociedade civil” e “os
poderes instituídos” são
tão generalizadas que o nosso mundo
pode vir a cair na armadilha de forças
que o paralisarão.
Premios:
Sélectionné aux Festival du Film
de Shanghaï, 2002
CinemAmbiente, Festival du Film Environnemental,
Italie, 2002
7ème Festival du Film Environnemental,
Turquie, 2003
Rencontres Médias Nord-Sud, 2003
Festival de Bombay, WSF, 2003.
O
documentário Por um Comércio
Equitativo dá a palavra aos protagonistas
da produção de cacau e nos apresenta
o “ comércio eqüitativo ” como
uma outra via possível para a economia
mundial, baseada em regras e valores mais humanos.
Embora o planeta se enriqueça cada vez
mais, a economia dos países do Sul não
consegue erradicar o círculo vicioso
da miséria, sendo excluída do
mercado mundial. Frente a uma economia neoliberal
submetida de facto às flutuações
aleatórias do mercado, um certo número
de pessoas decidiram instaurar uma maior eqüidade
entre produtores e consumidores.