Tire o "encosto" da sua vida


Atualmente, a religião com o maior número de seguidores no mundo é o cristianismo. Apesar de ser focada na vida e no exemplo de Jesus, filho de Maria, está acontecendo cada vez mais uma grande deturpação doutrinária, onde o papel central sai do Cristo para ser interpretado do seu maior rival, o Diabo.

O Cristianismo é maniqueísta por natureza. A briga entre o bem e o mal é parte importante da doutrina. No canto direito, Jesus, o cordeiro, aquele que está sentado ao lado de Deus. No canto esquerdo, Satanás, Diabo, demônio, Belzebu, pé-fofo ou qualquer nome que se prefira dar, Senhor das Trevas, o Anjo caído, que dá uma personificação para o Mal em si.

Historicamente dentro do cristianismo, a figura do demônio foi sincretizada pelas diversas regiões por onde o catolicismo passou. Na Europa veio a figura de Loki, celta, o único deus do panteão norte-europeu que era negro, tinha cabelos pretos e pregava peças. Ainda no velho-continente, temos o Deus cornífero, consorte da grande Deus, que assumiu a figura de personificação do mal. Sabem os famosos chifres de Belzebu? Sim, vieram da wicca. Em suas diversas andanças, o cristianismo emergente impôs a sua visão sobre Deus (o qual, curiosamente, teve a imagem física copiada de Zeus, do panteão grego), relegando a todas as outras deidades o papel de bandido na história.

O mundo ocidental foi criado em cima da mitologia cristã. Desde a Europa, passando pelas Américas, não se pode negar a forte influência da teologia de Cristo em nossas vidas. Crescemos aprendendo que, para rezar corretamente, temos de conhecer o Pai Nosso e, se quisermos o green card de São Pedro nas portas do céu, o caminho é confessar nosso pecados, pedir perdão (seja para o padre católico ou diretamente para a comunidade nas reunião protestantes) e aceitar Jesus.

Para os cristãos, a luta entre o bem e o mal acontece a todo instante. Na escola, no trabalho, nas ruas, em casa, enfim, onde exista alguém para ser "tentado" por Satanás. Ninguém está livre da influência dos demônios e a atrai conforme as próprias atitudes. Nos cultos evangélicos, principalmente naquelas ramos mais reacionários, a presença do diabo é mais constante do que a do próprio Jesus. Estou exagerando? Assista aos cultos televisivos ou até mesmo vá até um templo neo-pentecostal. Você vai ver que não estou sendo tendencioso, principalmente se o teste em uma igreja que siga o mesmo padrão da Igreja Universal do Reino de Deus, Igreja do Evangelho Quadrangular, Internacional da Graça ou Assembléia de Deus. (tudo bem, eu sei que existem outras neo-pentecostais e igrejas pentecostais que aceitam a Teologia da Prosperidade, mas esses quatro exemplos está de bom tamanho).

Mas quando foi que o diabo ganhou tanta importância assim dentro do cristianismo?

Com o crescimento do cristianismo, os padres tiveram de ressaltar o maniqueísmo ao seu extremo. Afinal, eles estavam tentando "dominar" religiões que muitas vezes eram milenares. E como convencer os novos fiéis que o Deus da Bíblia era o mais poderoso senão pela exacerbação dos defeitos dos outros deuses. Com isso, o famoso "ou está comigo ou está contra mim" se torna praticamente um bordão.
Quando chega ao Brasil, o catolicismo começa o mesmo processo que fez no mundo inteiro: assimilar os deus indígenas (Tupã, Jacy, Iracema) e africanos (Oxalá, Yemanjá, Xangô), transformando-os em demônios para que seus seguidores os deixassem realmente para trás.

Depois de fixada na cabeça dos brasileiros, o cristiansmo passa por um bom período onde era probibido qualquer culto que não fosse o católico. No entanto, junto com a proclamação da república veio a liberdade de culto e, consequentemente, o terreno conquistado pelos primeiros jesuítas que vieram ao país começa, naturalmente, a diminuir.

E a mesma liberdade religiosa que permitiu aos indígenas e afro-descentes cultuar suas divindades deixa margem para a mercantilização religiosa, onde Deus, a deidade, passa a se vendida como um mero produto intelectual. Interessante que essa mercantilização fora a principal crítica do mentor da Reforma: Lutero. O alemão Martinho Lutero criticava, entre outras coisas, a venda de indulgências(perdão), ou seja, perdão, pelo catolicismo europeu.

Surge uma distorção. As pessoas não procuram mais a divindade porque Ele é o Pai, mas sim para aliviar os próprios problemas. Observando essa característica, surge em seio evangélico a Teologia da Prosperidade, um verdadeiro "baque" nos católicos de plantão. Historicamente, o catolicismo prega que a vida na terra é de sofrimento e o fiél deve aceitar a pobreza para entrar no céu.

Daí chegam os pastores com a Teologia da Prosperidade, pregando que os fiéis devem, sim, ter prosperidade financeira aqui na Terra. E mais ainda: ter dinheiro é sinal de que Deus aprova o que ele faz.

Pronto, está aberto o cenário para a migração de milhões de católicos para o protestantismo. No entanto, as coisas começam a não dar tão certo assim: a prosperidade almejada não surge e os fiéis começam a questionar a validade das palavras do pastor. Como fazer para mudar isso? Vamos por a culpa no demônio (ele não pode vir aqui e se defender mesmo...).

Primeiro houve uma tentativa de demonizar o catolicismo. O movimento crescia dentro de igrejas evangélicas quando sofre um duro revés: o bispo Von Helder, da IURD, pregando ao vivo, chuta uma imagem de Nossa Senhora Aparecida, a padroeira do Brasil. Pronto! Compraram briga com quem não deviam. As próximas semanas são pautadas por denúncias e mais denuncias sobre superfaturamento, corrupção e desvio de dinheiro em igrejas evangélicas (muitas das quais não tinham nada a ver com a Universal). O ápice é um vídeo do bispo Edir Macedo explicando aos pastores como convencer os fiéis a dar mais dinheiro.

Vendo que bater na Igreja Católica dentro de um país predominantemente católico não era uma atitude muito inteligente, as baterias foram direcionada para os cultos afro, o que continua até hoje.

Apenas atacar os cultos afro não é foi o suficiente, pois a omilia é distante, o fiél saber que existe um demônio chamado Exu necessariamente não causa medo, pois essa entidade não faz parte da sua vida. Trazendo as entidades e deuses das religiões africanas para junto das pessoas, através dos "encostos" e "possessões demoníacas", os fiéis passam a temer qualquer manifestação religiosa de cunho africano como uma verdadeira ode ao Mal.

Mas porque dar tanta atenção ao diabo? Fácil, porque tira a culpa das nossas costas (um dos motivos para o sucesso das igrejas evangélicas dentro dos presídios?) e coloca em algo que não existe. Responda rápido: é mais fácil aceitar um erro ou jogar a culpa em cima de outras pessoa?

A imensa maioria das pessoas vai escolher a segunda opção. E justamente isso explica o fascínio que o diabo. Ele é uma saída fácil para nossos erros: "ouvia vozes que me mandavam tirar o dinheiro do caixa", "estava possuído por uma pomba-gira quando traí meu marido" ou, até mesmo "a culpa da tua loja não dar certo é do exu tranca-ruas".

Usar o demônio e as suas mais diversas facetas é uma boa estratégia para "manter o cliente", afinal, o posto de sacerdote pressupõe uma pessoa que tenha contato com a divindade, portanto, habilitada a tirar o "mal" da vida dos fiéis. Supostamante, o pastor tem o "dom" de expulsar o demônio. Afinal, ele não é Batizado com o Espírito Santo? Não conversa "por telefone" com Deus? Então, o sacerdote é um super-homem pronto para salvar sua comunidade das garras de Lex "Belzebu" Luthor.

Isso só vai acabar quando as pessoas começarem a aceitar sua natureza dual. Todo mundo tem dentro de si potencialidades boas e ruins. Ninguém escapa disso. Nem Jesus escapou da fraqueza. Lembram-se Dele na cruz? "Pai, porque me abandonastes?". Jesus também teve um lapso no final da própria existência. Então imagine nós que somos "apenas" seres humanos?

O papel do demônio vai diminuir na religiosidade quando aceitarmos que não existem vozes que mandam as pessoas tirarem dinheiro da empresa, que quando acontece uma traição, a culpa é de um relacionamento ruim e se a loja do fulano não tem movimento, os motivos vão desde a conjuntura econômica até falta de publicidade adequada ou simplesmente um produto que não vende muito bem.

Finalizando: algumas igrejas se propõe a tirar o demônio da vida das pessoas. Quer uma ótima dica para passar longe de qualquem encosto? Aceite quem você é e trabalhe para mudar o que não gosta no teu caráter. A culpa não é do diabo, nem do lúcifer ou do "pé-fofo". A culpa é de cada um.

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Rafael Limberger é radialista, mestre em Reiki e integrante do Movimento Umbandista.

 
   

 

Observação para leitura:

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