Felicidade é...

Estamos nós de novo no fim do ano, com a publicidade nos bombardeando com aquela ilusão de felicidade comprada nos shoppings, configurada em pacotes e pacotes de presentes coloridos, com muitas fitas, luzes, ceias fartas, família reunida, como se ter tudo isso fosse condição para que continuemos vivendo. Já faz um tempo que essa armadilha não me pega mais. É claro que estar junto é bom, ainda mais com as pessoas mais próximas da gente. É claro que comer bem é bom, ainda mais quando a gente compartilha. Presentear é bom, receber presentes também. Mas, será que se a gente não tiver um peru ou uma árvore enfeitada ou uma reunião familiar a gente não é nada? Será que felicidade é isso?

Em primeiro lugar, o importante não é ter, é ser. A quantidade de bens que uma pessoa possui não influi na capacidade dela ser feliz. Se você guiar a sua vida pelo desejo de possuir, é claro que num determinado momento você vai se frustrar. Porque você não pode ter sempre tudo que você quer, como já dizia a canção dos Rolling Stones. Um antigo psiquiatra costumava me dizer que, se alguém tiver uma ilha, vai sentir inveja de quem tem duas ilhas. E
vai sofrer por isso, se não entender que a felicidade é o bem mais barato que se encontra no mercado. Sabe porquê? Porque felicidade é item de fábrica. Isso mesmo, o ser humano já vem com o chip da felicidade implantado. Ser feliz e celebrar a vida é o que nós viemos fazer aqui nesse
planeta. Para começar, fomos brindados com o melhor presente, a vida. Já percebeu como um bebê é feliz? É que ele ainda não se deixou contaminar pelo consumismo, pela ditadura da moda. A felicidade dele vem de dentro. É claro,
ele precisa estar seco, alimentado, abrigado e amado.

À medida em que a gente vai crescendo e vivendo em sociedade, são muitos os obstáculos que arranjamos para justificar nossa incapacidade de sermos felizes. Há as meninas anoréxicas, escravizadas pela obsessão de ter um
corpo perfeito, que se auto-destróem tentando alcançar um padrão falso de beleza postada nas revistas, fruto de truques de maquiagem, fotografia e computação. Há os que se atiram em lutas fratricidas, primos que se matam há
milhares de anos, em nome de Deus. Há os que condicionam a sua felicidade às conquistas esportivas do seu clube - ou às desgraças do clube adversário. Há os que colocam todas as suas esperanças nos políticos, para se arrepender logo em seguida. Há os que esperam um amor, esperam um líder, esperam o momento, esperam um sinal, esperam Godot. Não dá para esperar, é preciso agir. Faz tempo que alguém disse que a verdadeira revolução deve acontecer
no interior de cada ser humano. E que está na hora do mundo acabar - pelo menos acabar de funcionar do jeito como vem funcionando.

Sobre felicidade, eu gosto de contar um episódio que testemunhei, numa viagem ao Canadá, nos anos 90. Eu estava caminhando pela Saint Catherine, uma das ruas principais de Montreal, quando ouvi uma gargalhada
gostosíssima, daquelas que a gente chama aqui no Sul de "risada de galpão". Era um riso de homem, um homem forte, que passava a idéia de muita felicidade. A risada dele não estava sozinha, se ouvia ainda uma mulher e uma criança, também se divertindo muito. Procurei a fonte de tanta alegria e descobri, no outro lado da calçada: era um homem de seus 30 anos, deitado em uma maca, dessas de hospital, com rodinhas. Pela posição, dava para ver que ele era tetraplégico. Estava deitado de bruços, com um garotinho de seus 3 anos montado a cavalo nele, e a mulher empurrava a maca. Isso. E os três morriam de rir. Nunca mais esqueci aquela imagem. E até hoje, quando começo a ficar deprê, sentindo pena de mim mesma, eu puxo aquele arquivo e penso: se aquele homem, que perdeu toda a sua mobilidade - e provavelmente sua masculinidade - consegue ser feliz e se divertir com o filho e a mulher do jeito que pode, quem sou eu para me queixar?

É claro que a dor da gente dói mais. É claro que os problemas não vão acabar se a gente mudar de atitude em relação a eles. Mas, exercendo essa capacidade de ser feliz e celebrar que vem junto com a nossa alma, a gente pode levar a vida muito mais fácil. Pode acreditar, pode começar agora.