Mundo Cinza
É
cada vez mais difícil tomar posição
sobre as grandes questões em debate na sociedade.
Ambientalistas x desenvolvimentistas, criação
x evolução, esquerda x direita, ciência
x religião... Todo mundo tem certeza, todo mundo
tem razão. A gente lê uma argumentação
brilhante e concorda com ela. E – graças
à internet - segundos depois lê uma contra-argumentação
tão brilhante quanto e também concorda com
ela.
Dá
a impressão que antigamente as coisas eram mais
claras. De que havia o preto e o branco, o bem e o mal
e não era difícil escolher de que lado ficar.
Mas será que essa “facilidade” acontecia
por serem as coisas, digamos, mais simples? Ou será
que antigamente, sendo mais jovens e inexperientes, nosso
repertório, nosso conhecimento, nosso raciocínio
é que era simplório e escolhia de forma
superficial, pelas aparências? Conforme vamos evoluindo,
ouvindo e lendo mais, refinando nossa capacidade de análise
crítica, reparamos nos detalhes sutis, entendendo
as argumentações sofisticadas e a multiplicidade
de pontos de vista. E o que era preto ou branco –
pela certeza da ignorância - fica cinza...
Por
exemplo, a Colômbia acertou ou errou quando invadiu
o território do Equador para liquidar os terroristas
das FARC? Em minha opinião a Colômbia errou.
Quebrou um princípio básico : invadiu a
casa do vizinho. Isso não se faz, é um ato
de violência, passível de retaliação.
Mas em minha opinião a Colômbia acertou:
eliminou os terroristas que estavam seqüestrando,
matando e ameaçando um governo eleito democraticamente.
Mesmo que para isso tivesse que invadir a casa do vizinho.
Portanto, tenho que condenar a Colômbia. Mas não
me atrevo a censurá-la. No lugar de Uribe eu faria
a mesma coisa.
É
o velho choque entre princípios e pragmatismo.
Quem estuda política está familiarizado
com essa discussão.
Princípios
ou crenças e valores constituem a base que suporta
as ações de um indivíduo. São
como filtros que determinam aquilo que entendemos como
certo, correto, justo e leal. Esses filtros são
desenvolvidos ou inibidos conforme nossa educação,
na família principalmente, pelos exemplos de nossos
pais e das pessoas que estão próximas enquanto
crescemos.
Por exemplo, tenho como princípio não roubar.
Qualquer ação que eu decidir praticar tem
que estar de acordo com esse princípio e não
admito deslizes. É claro e simples assim.
Mas então surge o pragmatismo, o ponto de vista
que subordina a verdade à utilidade. Não
roubo, por princípio. Mas se a vida de meu filho
depender de eu roubar, vou roubar sim.
Você pode até dizer que isso é compreensível,
que o princípio do roubo foi atropelado por um
princípio mais forte: o da preservação
da vida. Mas a minha decisão terá sido pragmática.
O
caso das pesquisas com as células-tronco envolve
o mesmo conflito entre princípios e pragmatismo.
A legalização do aborto. E a questão
do aquecimento global também. Lula abraçado
a Sarney ou Collor é um exemplo do pragmatismo
que se sobrepõe a princípios. Todo aquele
discurso idealista da esquerda cai por terra assim que
ela assume o poder. Muitos dirão que Lula está
errado ao trair seus princípios. Outros dirão
que se ele não agir assim, não governa:
para exercer política é necessário
ser pragmático. E então passamos a aceitar
certos deslizes como sendo “parte do jogo”.
Deixamos de lado nossos princípios em nome do pragmatismo.
Esse
é o momento em que a luz de alarme deve ser acesa.
Afinal, o que é que você leva em consideração
para escolher um amigo ou eleger um político? Os
princípios ou pragmatismo dele?
Pois
é... Não existe mais preto ou branco.
O mundo ficou cinza.
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Luciano Pires é
profissional de comunicação, jornalista,
escritor, conferencista, apresentador de podcast e cartunista.
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