Ano 1 - N° X

 

 

 

Os nomes dos edificios

O Rio introduziu no Brasil a cultura de apartamento. E, com ela, a expressão de cada prédio. Dobro da Ataulfo de Paiva, pego a rua Venâncio Flores e desço ate a Praça Paulo Mendes Campos. O Leblon transformado em um mercado persa no sábado, com nova avalanche de moradores de rua que ficaram “retidos” para manter uma artificialidade durante o Pan e que agora têm que correr, em dobro, atrás de sua féria. Na garagem do edifício Epernay, um sósia do Raul Seixas se esgueirava com um tabuleiro de cordões de prata entre o porteiro e a pernóstica senhora que estacionava seu Honda, enquanto o Raulzito cover fingia estar apenas de passagem. Mais tarde, passando por um Tour du Lac e um Chateau enrolado que não consegui ler direito, esperava ver um edifício Pirapora, Itapitocahy, ou algo do gênero,mas nada. Acabo por deparar-me com o esfuziante Palazzo Del Montalcino. Aqui e ali, toques muito moderados do mercado Roque Santeiro de Luanda, em Angola, atrapalhavam a pretensão européia da rua do Leblon.

Na Barra, predominam os nomes que lembram Miami. Na decadente mas aristocrática Copacabana, há ecletismo: edifícios Pery, Mariângela, um folclórico Galáxia, os inglesíssimos Duke of York e Queen Victoria, já mais para lá do que para cá, o enigmático Albion, o glorioso Montese no Leme, o somatório de iniciais de filhos, Solmar, Somager. Aqui e ali, um Palacete São Gabriel, um Itaqui, um Sete Povos, mostrando que o Rio Grande já teve a sua boa parcela disso aqui. O meu favorito em termos de nomes e estilo é o discreto Nouvelle Vague, na Ataulfo de Paiva, com o porteiro sósia do Enio Andrade. Parece que vejo aquelas francesas dos filmes do Chabrol descendo de um Citroën DS...

“Em Cuba”:A série que o Brasil não vë

O que há de melhor no Brasil hoje em termos de televisão não está acessível a todos, tampouco tem merecido o devido destaque: é a série Em Cuba, gravada semi-clandestinamente na ilha famosa, traz depoimentos realistas da luta pela sobrevivência, da dúvida sobre o futuro, da desilusão com o socialismo, da ambigüidade entre o sentimento pessoal e o temor do patrulhamento político. O que surpreende positivamente é o pluralismo da direção da série que não tenta nos empurrar uma opinião e o livre pensamento e a mente aberta dos cubanos entrevistados, mesmo com todas as tentativas de verdade única que lhes é imposta. A conclusão é óbvia. Interessante é o caminho em que é construída: nada pode ser mais grosseiro do que tolher o direito de ir, vir e pensar do ser humano, tentar patrulhar ou patrolar o pensamento.

A pergunta é: por que essa série não passou em nenhum canal de TV aberta, e está em cartaz somente no Canal Brasil, na TV a cabo? Por que esconder algo tão bom? Quem disse que o povo brasileiro não gosta de aprender e pensar?