Ano 1 - N° IX

O melhor inverno do mundo

O povo carioca, entre suas inúmeras virtudes, não prima pela modéstia, assim como pelo grau de exigência. É famosa a frase que diz “o melhor verão do mundo”, que dá uma idéia de paraíso sensual à beira-mar ao som de música de primeira, bebidas e petiscos, encontro de amigos. Na prática, os fins de semana do verão carioca são mais uma mistura de Calcutá, pelo calor e acúmulo de gente, Palma de Mallorca invadida pelos russos (pelo número de turistas rosados e esbaforidos) , de feira de camelô e acúmulo de batucadas, propaganda e caminhões de coco. Os que ainda não viciaram estranham e procuram o que, afinal, há de tão bom. Gatinhas de Ipanema, no alto verão, las hay, mas também aumenta muito a proporção de muxibentas.

Ao contrário da nossa conterrânea Calcanhoto que cantou que o “inverno no Leblon é quase glacial”, talvez por não conhecer Bom Jesus, afirmo com segurança que a estação em que o Rio mais se aproxima do paraíso que todos gostaríamos que fosse é exatamente nesse inverno. Um belíssimo inverno. Ruas arborizadas de gente melhor humorada, praia bem freqüentada, espaço, privacidade, brisa do mar, calor de 28 graus, encontro com amigos em cada esquina, conversa sossegada. E a luz do dia tem algo muito próprio.

Brizola tinha razão?

O velho caudilho é como El Cid em cima do cavalo. Mesmo depois de morto, desperta ódios e paixões arrebatados. Um taxista que volta e meia me leva diz que “ele impunha respeito”. O garçom da Marisqueira, sede do bacalhau Mário Soares, não esconde sua paixão pelo “patrão”, que no entanto não é unanimidade nem na casa. A grande maioria da classe média da zona sul classifica os seus governos como “um desastre para o Rio”. E os argumentos são bastante razoáveis.

Polêmica à parte, ele deve estar rindo, esteja onde estiver, do povo do Leblon, atrapalhado pelas filmagens da Rede Globo, o lúcifer do velho Itajiba, capaz de esculhambar saídas de garagens e fazer os moradores mudarem de planos e se atrasarem. Já rolou vaia e ovo, além de uma cena de “arrastão” que nunca existiu no bairro. Os paparazzi, pentelhos profissionais, afugentam as folclóricas celebridades das ruas e do cotidiano. As senhorinhas mais conservadoras também não estão gostando das moradoras do bairro estarem sendo rotuladas como devassas insaciáveis (onde estão, eu não as vejo...), com ou sem música do Roberto Carlos. A culpa...ora..é de quem? Da Rede Globo, é claro.