Ano 1 - N° VII

São Paulo Bagdá : a face irônica

Enquanto tem gente que parece estar comemorando em silêncio o fato trágico que teria devastado a Lavoura de Chuchu (será?), persistem dois traços irônicos. Um deles é a revelação de um astro de filmes de terror em rede nacional capaz de contracenar com o antigo Bela Lugosi; outro, a secreta perversão dos cariocas ao ver o "entrevero" lá do outro lado do campo, em uma São Paulo que tanto enxovalhou e adora enxovalhar o Rio. Quem diria que as duas grandes capitais nacionais estariam disputando qual a mais trash....

Caneco 70: Reforma ou Despedida?

Por incrível que pareça, não existe na orla da Zona Sul do Rio de Janeiro um único restaurante em que se consiga sentar ao ar livre em um plano minimamente elevado. Os bares de Copacabana ficam no nível do mar, o que permite ver chatos de galocha vendendo quinquilharias, moças de fino trato acompanhando alemães vermelhões, mas não o mar. Na varanda do segundo andar do Caneco 70, no finzinho do Leblon, se podia ver e conviver com o mar na companhia dos vizinhos de bairro e visitantes folclóricos, mas não jecões. O cenário para uma tarde interminável, com as amendoeiras da rua do lado e a praia sem exageros. Bem ou mal, tinha chateaubriand sauce bernaise e steak poivre. E lá o Rio tinha muita cara de Rio. Isso não no tempo-do-onça, mas na semana passada.

Não existe mais por que essa semana o Caneco 70 amanheceu fechado. Teria sido vendido para um novo empreendimento imobiliário, ou apenas reformado para a Copa? Tenho medo de ir lá perguntar.

O Leblon e Ipanema são uns dos poucos lugares no Brasil onde ainda há bom comércio e lazer na rua e onde se encontram as pessoas- que é o segredo de qualquer bairro ou cidade que mantém a urbanidade. As vezes a Ataulfo de Paiva lembra para mim a antiga Rua Grande de São Leopoldo. Deve lembrar outras ruas para tantos outros cariocas por assimilação.

Mas há um shopping sendo construído próximo ao Jardim de Alá que gera controvérsias e dúvidas se há demanda na região para o comércio de rua se manter. Perdido o comércio de rua, não há revitalização que salve. Está morto o bairro. Quem achar um shopping center de grande porte na região central de Nova York, Paris ou Roma ganha um prêmio. E nessas cidades ninguém da ponto sem nó: por algum motivo, será.

Quem te ouviu, quem te ouve

Ouvir o último CD do Chico Buarque trouxe uma sensação próxima de ver o Falcão jogando a Copa de 86: tristeza em notar que um craque já não consegue fazer o que já fez com maestria. É óbvio que quem escuta as inéditas de Chico já as qualifica em um nível acima da média da MPB de hoje - todo fora de série tem um nível mínimo de qualidade. Mas é muito ralinho para quem sintetizou obras-primas como “Flor da Idade” (quem ainda não ouviu, ouça por favor) e tantas outras.

O Chico, dizem, é uma figuraça com quem mostra ter mais de três neurônios, escreve bem (Budapeste é muito bem escrito, apesar de xarope) e demonstra ter bom gosto nas escolhas gastronômicas. Mas, craque em seu ofício, volta e meia se atrapalha quando resolve falar de sociedade e política. E como.