Ano 1 - N° X

Ângelo, Bar Arthur e o Rat Pack Porto-Alegrense

Pois é, o Ângelo do Bar Chopp Arthur foi-se. E, com ele, o risco de perder-se de vez esse mito da vida etílico-gastronômica porto alegrense. Nos últimos anos, fui poucas vezes. A última, se não me engano, levei o Poli e já estava lá o indefectível Marcelo Coteau Dull, que ultimamente fazia, com orgulho, as vezes de móveis e utensílios da casa e me contava das proezas do Bar Arthur. A portinha meio escondida e fechada, o jeito de clube fechado que lembra vagamente o British Bar de Lisboa. E a clássica intolerância do Ângelo ao diferenciar os clientes comuns dos habitués da casa e seus convidados. Ali, rollmops era de lei, arenque iguaria corrente, o sanduíche aberto um espetáculo. O chopp com copo de cristal, como deve ser. E as fitas cassete de bossa nova do Ângelo, que pareciam ter sido gravadas in loco no Carnegie Hall, no Village Vanguard, na cozinha do Beco das Garrafas, onde se ouvia a respiração dos músicos e cantores. O ambiente infame de clube de cafajestagem e piadas politicamente incorretas. Sem perder a classe.

Um dos últimos momentos de glória do Arthur foi o prêmio como um dos melhores da cidade da Veja Porto Alegre, indicado pelo Poli e prêmio recebido pelo Coteau. Bar que ganha prêmio e um cliente vai buscar não é para qualquer um. Esse era o “clube” do Ângelo, uma luz que não deve acabar. Na Alberto Bins, ah, o lugar é difícil. Difícil para quem é chato.E daí? O Bar do Léo na rua Aurora em São Paulo é muito pior em termos de localização e vive cheio. E desculpem, não tem, assim como nenhum boteco do Rio, o charme único dos bar-chopp de Porto Alegre, principalmente no inverno, com um velho comparsa ou eventualmente aquelas amigas que já tivemos, que vão ficando em extinção com o fim do velho Líder da Independência, a mudança de endereço do Walter, e o Prinz, que continua lá, ótimo, mas muito família. O Arthur sim, tem a essência do Rat Pack que vai além do enorme e inspirador “pôster” que tem por lá. Viva o Ângelo, viva o Bar Arthur, viva seus amigos e freqüentadores.Vamos levar gente para lá para não deixá-lo fechar. Mas cuidado....gato, cachorro velho e freqüentador de bar clássico odeiam novidade. A mediocridade do mundo anda muito grande. Não podemos simplesmente capitular. Let´s keep Arthur open! Longa vida ao Rat Pack.


Arnaldo Jabor

É a voz mais corajosa desse País, contra a mediocridade, a hipocrisia, a acomodação em torno do que é chinfrim, em defesa da liberdade de expressão. Outro o dia o vi sendo aplaudido em um restaurante. É um dos poucos que permanecem dizendo o que acha, sem medo de patrulhas. Excelente cronista, ótimo comentarista, também já fez bons filmes e outros nem tanto – lembram do Peréio vestido de Urso?

Gustavo Grisa, do Rio de Janeiro