Análise

 

Neológica dos debates


O resultado daquele jogo foi 6 x1 , não 7 x 0, conforme saiu no Estadão do dia 1 de junho.

Por que fui mencionar isso? Para poder em seguida, partindo de uma verdade, tentar entender o modo petista de debater.

Vamos ao 'silogismo' – que nada tem de silogismo. Nada mesmo, aí está a graça. Abramos aspas:

"O Brasil ganhou de 6 x1 , não de 7 x 0 como tentou fazer crer determinado órgão da mídia reacionária e golpista" – amordaçado há mais de 10 meses, não se sabe por quanto tempo, aliás ninguém parece dar bola, temos assuntos mais importantes do que lamentar a desdita do periódico. Vamos ao "corolário" da "neológica". Mais aspas:

"Esse jornal se valeu dessa mesma maneira torpe de distorcer os fatos para afirmar que 90% da cocaína que ingressa no Brasil o faz pela via cocalera, como pretende o Sr. Serra – o sujeito que irá cortar férias e mexer no FGTS, segundo o bem informado Paulinho, partidário da farsa (sem trocadilho) de espalhar o terror, um gentleman, em suma. Na verdade o valor correto seria 83,775852 % o que demonstra a má-fé do candidato e do jornal. Se houve uma informação errada – dirão os neoaristotélicos – o resultado do jogo, para quem ninguém mais dá pelota, não será mais possível dar crédito total ao Estadão. Quod erat demonstrandum! Bonito e elegante! Doravante, vamos acreditar nos golden boys da situação. Um marciano recém-chegado, ao tomar conhecimento dessa bulshitagem geral, concluiria que além de demonizar o governo boliviano, Serra deve seguramente alimentar-se de criancinhas (isso se o seu gastro não proibir). O problema não são as conclusões dos marcianos, infelizmente.

Conforme assinalou um assinante bem-informado, numa epístola ao jornal sectário que mesmo assim publicou a bobagem, o maior consumidor de cocaína são os EUA, fato não mencionado pelo subserviente – numa apreciação imparcial desse mesmo assinante. Serra omitiu esse dado fundamental – assim como o é a temperatura de fusão do urânio enriquecido ou empobrecido – talvez, pela boa e simples razão que o assunto era outro. Tadinho do governo boliviano, agredido dessa maneira. Justo esse governo irmão que, delicadamente invadiu as instalações da imperialista Petrobrás – cujo valor de mercado é de 'muitas' Bolivias. Mas que é nossa, enfim, deles. Não, é nossa mesmo.

O importante, nessa fase de denso nevoeiro – quando ninguém sabe ao certo até onde é possível jogar-se na área, pedindo pênalti, até ser expulso – é cometer o máximo de irregularidades inteligentes, infringir a lei. O custo, se houver, será infinitamente menor que o estrago causado "ao outro lado". "Aloprados" parecem brotar por geração espontânea, gargantas de aluguel, idem.

Se Paris valeu uma missa para Henrique IV, a presidência vale meia-dúzia de multas. Multas...alguém dá bola, se quem paga, se algum dia pagar, será o contribuinte?

Veremos a repetição de cenas de outras campanhas, nas quais o candidato declarava – citando Groucho Marx: São esses meus princípios, agora, se não gostarem, tenho outros.

Pergunto: É possível haver um debate sério, decente, fidalgo?

 
 O colunista

Alexandru Solomon

Alexandru Solomon, formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar` e o livro/peça ´Um Triângulo de Bermudas`. (Ed. Totalidade).

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