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Demonizar não é tão difícil quanto possa parecer. Depois que o jogador Gerson, o canhotinha de ouro da Copa de 70, num comercial dos cigarros Vila Rica, sentenciou: O importante é levar vantagem em tudo, certo?, aquela sentença virou, além de slogan de sucesso na tal campanha de há muito esquecida, o paradigma da safadeza. Pobre Gerson. Ninguém, ou muito poucos se recordam de ter sido ele autor de magníficos lançamentos, ou do gol que desempatou a final Brasil x Itália em 70. O publicitário valeu-se do cacoete do jogador que consistia em falar “certo” a cada meia-dúzia de palavras e, involuntariamente, possibilitou o surgimento de uma generalização infamante. A memória coletiva apagou a biografia do jogador e deixou apenas a identificação da malandragem com uma suposta “lei de Gerson”, como veio a ser conhecida. A simples menção da lei joga fumantes e não fumantes na vala da ignomínia. A menção oculta a intenção inicial, resultando uma expressão com vida própria. Por definição, os “Ishperrrtos” seguem a tal lei. Fim de conversa. Aludir a uma pessoa como aplicador da lei de Gerson é o mesmo que chamá-la, na melhor e mais indulgente das hipóteses, de aproveitador. Portanto, deturpou-se o sentido inicial da propaganda, abominou-se com razão a tentativa de levar vantagem em tudo e uma vez que o jogador proferiu a frase infeliz, o conceito de desonestidade ganhou um sinônimo, colado ao autor da sentença. De acordo com o autor Jean Sevilla no seu livro “Terrorismo intelectual’, essa é uma técnica, que por ser universal, é usada abusivamente por essas bandas também. Concentram-se virtudes negativas, abomináveis, execráveis etc. e elas são associadas a um rótulo, que logo a seguir passa a ser usado como estigma, já descolado da sua origem. Há diversos exemplos, cujas origens são diferentes, mas o mecanismo não é muito diferente. Privatistas, entreguistas, alienados politicamente, burgueses, etc. são indivíduos de altíssima periculosidade a serem colocados urgentemente no paredón ideológico! O processo que deu origem a essas marcas conspurcadoras difere conforme o caso, mas o resultado é o mesmo. Evaporou-se a causa, sobrou o insulto. Não é muito diferente do que se fez com o tal ´´Consenso de Washington``. Inicialmente, era um decálogo formulado em novembro de 1989 por economistas de instituições financeiras baseadas em Washington D.C., como o FMI, o Banco Mundial e o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos, fundamentado num texto do economista John Williamson, do International Institute for Economy, e que se tornou a política oficial do FMI em 1990, quando passou a ser ´´receitado`` para promover o ´´ajustamento macroeconômico`` dos países em desenvolvimento que passavam por dificuldades, informa a Wikipedia. As medidas, isoladamente, não representavam absurdos inomináveis. Eram elas: · Disciplina fiscal · Redução dos gastos públicos · Reforma tributária · Juros de mercado · Câmbio de mercado · Abertura comercial · Investimento estrangeiro direto, com eliminação de restrições · Privatização das estatais · Desregulamentação (afrouxamento das leis econômicas e trabalhistas) · Direito à propriedade intelectual O FMI cometeu seus trágicos enganos, o receituário mostrou ter falhas teríveis, mas hoje, poucos são aqueles capazes de citar metade das tais medidas. Muito mais cômodo era gritar Fora FMI! Sobraram duas abominações: Consenso de Washington, reforçado pelo antiamericanismo tão em voga sob diversas latitudes – se fosse ainda o consenso de Bratislava, vá lá, mas de Washington, nunca, never, jamais! – e neoliberalismo, do qual o tal Consenso teria sido a conceituação teórica. Pronto. Aludir ao Consenso, sem apor-lhe uma marca ultrajante, sem cuspir cada palavra com desdém, é marca de antipatriotismo no seu estágio mais agressivo. Quanto a neoliberal, diferente de neobobo – como já disse alguém – é um indivíduo a ser execrado por ser um inimigo da classe trababalhadora. Malditos neoliberais! Liberais, a rigor, podem ser tolerados. Aos neo, o sambenito e a vaia ensurdecedora! |
Mitos, Quimeras e Discursos de Campanha
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